Saúde e Consciência Humana com Pedro Ernesto Macedo

03.02.2026

Obesidade: a linguagem da sobrevivência

A obesidade tem sido tratada de forma equivocada pela prática médica dominante. Em grande parte dos casos, trata-se o sintoma - o excesso de peso - e não a doença em sua origem.

Dietas, medicamentos, exercícios, cirurgias e protocolos mirabolantes são aplicados como soluções centrais, enquanto os determinantes fundamentais da doença e sua neurobiologia, os quais sustentam o comportamento alimentar, permanecem intocados. Resultado: perda de peso inicial seguida de reganho, frustração e cronificação.

Para compreender por que isso acontece, é fundamental reconhecer que existem hoje dois posicionamentos divergentes no tratamento dos transtornos alimentares e do chamado “vício em comida”.

O primeiro, hegemônico na medicina tradicional, entende a comida como uma substância viciante.

A partir dessa lógica, o tratamento se organiza em torno de abstinência de determinados alimentos, identificação de “gatilhos”, controle rígido de horários, dietas restritivas, uso de fármacos e, nos casos mais graves, cirurgia bariátrica. Embora essas estratégias possam produzir redução ponderal no curto prazo, a literatura demonstra que os resultados são transitórios na grande maioria dos casos.

Uma revisão clássica publicada na revista científica American Psychologist, com o título Diets are not the answer (Dietas não são a resposta), analisou décadas de estudos sobre emagrecimento e chegou à seguinte conclusão: “A maioria das pessoas recupera o peso perdido após dietas, e uma parcela significativa acaba ganhando ainda mais peso do que antes”.

Segundo os pesquisadores, o chamado efeito sanfona não é falha individual, mas consequência de adaptações biológicas do metabolismo e do aumento do estresse físico e emocional provocado pela restrição alimentar prolongada.

O mesmo padrão aparece no uso dos chamados medicamentos emagrecedores. A extensão do estudo internacional STEP 1, que avaliou os efeitos da semaglutida (Osempic) após a suspensão do tratamento, mostrou que a maior parte do peso perdido foi recuperada em menos de um ano, com a piora de marcadores cardiometabólicos.

“O tratamento farmacológico funciona enquanto está ativo. Quando o medicamento é interrompido, o organismo tende a retornar ao peso anterior se não houver mudança estrutural no comportamento alimentar”, concluem os autores do estudo publicado em revista científica.

Nem mesmo a cirurgia bariátrica escapa a essas observações. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo chamou a atenção ao apontar que 92% das pessoas submetidas à cirurgia bariátrica voltam a ganhar peso ao longo do tempo.

A pesquisa mostra que, embora o procedimento seja eficaz para a perda inicial e para a melhora de doenças metabólicas, o reganho de peso é a regra quando fatores emocionais e comportamentais não são tratados.

“O procedimento cirúrgico altera o estômago, mas não modifica, por si só, a relação emocional do paciente com a comida”, apontam os autores do estudo. 

O segundo ainda com uma abordagem, marginalizada na prática clínica tradicional, compreende os transtornos alimentares e o chamado vício em comida como uma estratégia de sobrevivência relacionada a experiências adversas precoces, especialmente traumas da infância.

Nessa perspectiva, a comida não é o problema central, mas o recurso encontrado pelo indivíduo para regular emoções que, em algum momento da vida, foram intoleráveis. Comer deixa de ser apenas um ato nutricional e passa a funcionar como um regulador do sistema nervoso.

Sabe-se que nenhuma substância é viciante por si mesma. Se o problema estivesse exclusivamente no alimento, todos os seres humanos seriam obesos, pois todos comem.

Se o álcool fosse intrinsecamente viciante, todas as pessoas que consomem bebida alcoólica desenvolveriam alcoolismo, o que não ocorre.

O mesmo raciocínio se aplica ao açúcar, à gordura ou aos ultraprocessados: se fossem a causa isolada do vício alimentar, a prevalência de obesidade seria homogênea entre indivíduos expostos ao mesmo ambiente alimentar, e não é.

O que varia não é a substância, é a pessoa, em especial as que apresentam o que chamamos de vulneráveis. 

A evidência clínica e epidemiológica confirma esse princípio. Apenas uma parcela das pessoas expostas a uma mesma substância desenvolve comportamento adictivo.

Estudos clássicos com opioides (morfina) mostram que pacientes hospitalizados que recebem morfina por períodos prolongados raramente desenvolvem dependência após a alta. Em contrapartida, indivíduos com histórico de trauma, negligência emocional, abuso ou estresse crônico apresentam risco maior de adicção, independentemente da substância envolvida.

O vício não está no objeto, mas na função que exerce na vida emocional da pessoa. Nesse contexto, o comportamento adictivo - comer compulsivamente - surge como uma tentativa inconsciente de autorregulação emocional.

A comida passa a cumprir um papel específico: aliviar, ainda que momentaneamente, dor psíquica, ansiedade persistente, sensação de vazio interno, abandono afetivo ou insegurança relacional.

Do ponto de vista neurobiológico, esses comportamentos ativam circuitos de recompensa e liberação dopaminérgica que não produzem prazer genuíno, mas alívio temporário do sofrimento. Como o alívio é breve, é seguido por culpa, vergonha e pela necessidade de repetição do comportamento, perpetuando o ciclo.

Quando perguntamos aos pacientes “o que a comida está tentando anestesiar?”, emergem histórias de infância marcadas por ausência emocional, ambientes imprevisíveis, exigência excessiva, rejeição, humilhação ou necessidade precoce de amadurecimento.

Nesses casos, a comida não é o inimigo; em algum momento, a comida foi uma solução possível para uma mente que aprendeu a sobreviver sob ameaça emocional constante.

Essa compreensão muda radicalmente o tratamento da obesidade. Em vez de focar apenas na dieta, proibições, controle, medicamentos, exercícios, torna-se necessário tratar o terreno emocional e neurobiológico que possibilitou aquele comportamento indispensável.

Caso contrário, o sintoma pode até desaparecer temporariamente, mas a dor subjacente buscará outra via de expressão, pelo reganho de peso ou pela substituição por outro comportamento compulsivo.

O fator decisivo não está apenas na substância, mas na configuração do cérebro que entra em contato com ela, na suscetibilidade da pessoa. E essa configuração não é aleatória. É moldada pelas experiências da primeira infância.

A neurociência do desenvolvimento demonstra que o cérebro humano é programado pela experiência precoce: os circuitos neurais, os sistemas de resposta ao estresse e os padrões de regulação emocional se organizam em resposta ao ambiente relacional no qual a criança cresce.

Emoções acolhidas, validadas e reguladas constroem um sistema nervoso flexível. Emoções reprimidas, ignoradas ou punidas constroem um sistema nervoso em estado de alerta crônico.

Nesse contexto, o vício seja em comida, deve ser compreendido como uma resposta adaptativa ao trauma.

O trauma aqui não se refere apenas a eventos extremos, mas também a experiências repetidas de insegurança emocional, ausência de sintonização, invalidação afetiva e impossibilidade de expressar sentimentos.

O comportamento adictivo surge como uma tentativa de aliviar um sofrimento que não encontrou espaço para ser sentido, nomeado e elaborado. Quando o trauma não é tratado, o cuidado se limita às manifestações superficiais, e não às causas profundas.

Em curto prazo, o comportamento oferece conforto, anestesia emocional e sensação de controle. Porém, em longo, como todo vício, traz prejuízo físico e sofrimento psíquico.

Ainda assim, enquanto a dor original permanecesse ativa, aquele comportamento continuaria sendo necessário. Essa lógica se repete de forma consistente na prática clínica.

Em pessoas com transtornos alimentares ou compulsão alimentar, sem exceção, observa-se a presença de trauma muitas vezes silencioso, relacional, invisível aos olhos externos.

Quando esse trauma não é abordado, qualquer intervenção se limita a tratar manifestações secundárias. A obesidade, nesses casos, não pode ser compreendida como um fenômeno individual isolado, mas como parte de um sistema familiar e social marcado por traumas multigeracionais.

O peso que o corpo carrega não começa nem termina naquele indivíduo, atravessa gerações, padrões de vínculo e histórias emocionais não resolvidas.

Essa compreensão também desmonta a explicação simplista baseada na genética.

A ideia de que a adicção em comida ou a obesidade sejam genéticas carece de sustentação científica.

O que existe é uma suscetibilidade genética relacionada à sensibilidade. Algumas pessoas nascem mais sensíveis ao ambiente, aos estímulos e às emoções.

Essa sensibilidade, por si só, não causa vício. Apenas amplia a intensidade da experiência. Em ambientes seguros, essa característica pode se traduzir em empatia, criatividade e profundidade emocional.

Em ambientes dolorosos, essa mesma sensibilidade aumenta a probabilidade de sofrimento e, por consequência, de busca por alívio por comportamentos adictivos.

Portanto, não é a genética que determina o vício em comida, mas a interação entre sensibilidade biológica e ambiente emocional, que foi moldado por experiencias adversas.

Por isso, tratar a obesidade e os transtornos alimentares exige uma mudança radical de paradigma. Não basta prescrever dieta, exercícios, medicação ou cirurgia.

É preciso criar um espaço no qual a pessoa possa, talvez pela primeira vez, sentir sem ser punida, expressar sem ser envergonhada e existir sem precisar se anestesiar. É nesse espaço que reside a verdadeira possibilidade de mudança duradoura.

Enquanto a medicina insistir em tratar apenas o peso, continuará fracassando. Quando começar a tratar a história que o corpo carrega, a obesidade deixará de ser vista como falha moral, descontrole ou simples desequilíbrio metabólico e passará a ser compreendida como o que, em muitos casos, realmente é: a linguagem de um corpo que aprendeu a sobreviver à dor.

Quando a dor que o originou é cuidada, o comportamento deixa de ser necessário. Quando essa dor permanece ativa, o organismo encontra outras formas de sobreviver ainda que à custa da própria saúde.

Dr. Rogerio Silva

Médico cardiologista pós-graduado em Neurociência, Psicologia e especialista em emagrecimento saudável.
CRM-SP 172.2346
Instagram: drrogeriosilva1
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Jornalista Pedro Ernesto Macedo


Pedro Ernesto Macedo

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