Colunistas | Colunas

Pedro Ernesto Macedo — conhecido do público como Pedro Ernesto Macedo — é jornalista, apresentador e escritor. Nascido em Rio Grande (RS) em 2 de dezembro de 1982, tornou-se referência no jornalismo brasileiro pela maneira singular de unir razão, emoção e estética em cada entrevista.
Criador e âncora do programa Entre Ideias, já conduziu mais de sete mil entrevistas com nomes do agronegócio, da medicina e da cultura, atingindo milhões de visualizações mensais.
Sua marca é a comunicação viva, provocadora e filosófica

Atualmente, Pedro expande sua atuação para o campo da saúde e da consciência humana, e prepara o lançamento de seu livro A Frequência da Comunicação, em que apresenta sua teoria sobre a vibração certa para gerar conexão, autoridade e presença.

29.04.2026

A Elegância como Declaração Diária: Ou Como Não Se Render ao Caos da Mediocridade

Diga-me, caro leitor, com toda a franqueza que o espelho não perdoa: quando foi a última vez que você se levantou da cama e decidiu que o dia seria um palco, e não um ringue de sobrevivência? Não me venha com essa história de que elegância é coisa de dândi do século XIX ou de influencer com filtro no Instagram. Eu pergunto – e faço sempre as minhas perguntas, como quem lança um desafio ao vazio da existência –, o que resta de nós quando o corpo se curva, a roupa grita desleixo e a palavra escorrega sem polimento? A elegância, meus amigos, não é adorno. É postura da alma. É moda que não segue tendência, mas eternidade. É etiqueta que transforma o trivial em ritual. E é assim, todos os dias, que devemos ser. Ou então, francamente, para que viver?

Antônio Abujamra, aquele titã da provocação teatral, teria gargalhado com a boca torta e o cigarro entre os dedos: “O que é a vida, senão um espetáculo onde o figurino revela o caráter?” Pois bem. Eu, Pedro Ernesto Macedo, tomo o bastão e ergo a cortina. Não para entreter, mas para confrontar. Porque hoje, em 2026, o mundo desaba em pixels e pressa, e o homem comum – ah, o pobre homem comum – troca a gravata pelo moletom, o passo firme pelo arrastar de chinelo, o “obrigado” sussurrado pelo emoji de polegar. Ridículo. Patético. E, pior, aceito como norma. Eu recuso. Recuso com a fúria de quem sabe que a verdadeira revolução começa no espelho do banheiro, às seis da manhã.

Vamos ao corpo, primeiro. A postura. Ah, a postura! Não é mera coluna reta; é declaração de guerra contra a gravidade da alma medíocre. Observe o homem elegante: ele não anda, ele atravessa o mundo como se o chão lhe devesse reverência. Ombros abertos, queixo paralelo ao horizonte, peito que respira não oxigênio, mas dignidade. Sentado, ele não desaba na cadeira – ele a ocupa, como um rei em trono provisório. Por quê? Porque o corpo é o primeiro terno que vestimos ao nascer e o último que despimos ao morrer. Curvar-se é render-se. Endireitar-se é resistir. Eu vejo, todos os dias, executivos com diplomas caros e colunas tortas como interrogados da Inquisição. Vergonha. A postura ensina: o mundo não te deve nada; você deve a si mesmo a imagem de quem não se quebra.

E a moda? Ah, moda... Não confundam com tendência, essa prostituta sazonal que vende alma por like. Moda elegante é código. É armadura sutil. O corte do paletó que cai como se tivesse nascido no corpo. A camisa branca impecável, sem uma ruga que denuncie preguiça. O sapato engraxado que reflete não vaidade, mas respeito pelo chão que pisa. A mulher – sim, falo também às damas – que escolhe o vestido não pela marca, mas pelo modo como ele dialoga com sua silhueta e com o momento. Jeans? Sim, mas com camisa de linho e postura que transforma o casual em aristocracia. Eu pergunto: por que aceitar o uniforme da massa quando cada fibra pode ser poesia? No dia a dia, a moda não grita; sussurra soberania. Evite o excesso de logos – isso é grito de insegurança. Prefira o silêncio do tecido bem escolhido. E, por Deus, nada de meias com sandália. Isso não é moda; é crime contra a humanidade.

Agora, a etiqueta. O grande esquecido. Etiqueta não é protocolo empoeirado de embaixada; é a arte de tornar suportável a convivência entre animais racionais. Cumprimentar com o olhar no olho, não no celular. Segurar a porta não por dever, mas por prazer de ser o arquiteto de um momento civilizado. À mesa, o garfo não é arma; é extensão da mão que respeita o outro. No elevador, o silêncio não é vazio – é espaço sagrado. Eu vejo, com o mesmo nojo que Abujamra reservava aos charlatães, o bárbaro moderno: fala alto no restaurante, interrompe, responde e-mail durante o jantar. Etiqueta é prever o desconforto alheio e evitá-lo com elegância cirúrgica. É dizer “com licença” antes de existir. É responder mensagem com a mesma pontualidade que se espera do mundo. No digital? Mais ainda. Um áudio de dois minutos é grosseria; um texto claro, conciso e educado é elegância 2.0.

Mas por que tudo isso, todos os dias? Porque a elegância não é fim de semana. É disciplina diária. É acordar e escolher não ser mais um. É vestir o corpo, alinhar a coluna, polir a palavra e sair para o mundo como quem entra em cena sabendo o texto de cor. Eu, que vivo entre colunas e microfones, vejo o contraste: o executivo que chega atrasado, suado, com camisa fora da calça, e o outro – raro – que entra como se o ar se abrisse à sua passagem. Um vende produto. O outro vende presença. Qual você quer ser?

Deixem-me contar uma anedota que ilustra. Há tempos, em um coquetel de gente “importante”, vi um jovem prodígio da tecnologia: tênis sujo, camiseta de marca, barba por fazer. Falava alto de inovação. Ao lado, um senhor de setenta anos, terno impecável, gravata de seda, postura de quem já leu Proust no original. Não disse uma palavra sobre si. Apenas ouvia. Quando o jovem terminou o monólogo, o velho sorriu e disse, com voz baixa e precisa: “Interessante. Mas me diga, filho, por que o seu sapato não brilha como a sua ideia?” Silêncio. O jovem corou. Eu sorri por dentro. Aquilo foi elegância em ato: não humilhação, mas espelho. O velho não atacou; revelou. Etiqueta elevada a arte.

E a moda, no feminino? Ah, as damas. Vocês, que carregam o peso de séculos de exigência, têm o poder de redefinir. Não sigam a ditadura do corpo perfeito; sigam a ditadura da presença. Um batom vermelho bem aplicado vale mais que mil filtros. Um salto que não machuca a alma, mas eleva o andar. Uma bolsa que não carrega apenas objetos, mas história. Postura: ombros para trás, mesmo quando o mundo pesa. Porque a mulher elegante não compete; ela define o padrão.

Crítico? Sim. Sou. Da superficialidade que trocou o perfume francês pelo cheiro de desodorante vencido. Da geração que acha que “autenticidade” é sinônimo de relaxamento total. Autenticidade sem refinamento é selvageria. Refinamento sem autenticidade é máscara. O equilíbrio? Elegância. Todos os dias. No trânsito, no escritório, na fila do pão. Porque o padeiro também merece o seu melhor “bom dia”.

Eu termino como Abujamra terminaria: com uma pergunta que fica no ar, queimando. O que é a vida, caro leitor, senão a soma dos pequenos gestos que nos tornam inesquecíveis? Seja elegante hoje. Amanhã. Sempre. Vista o dia como se fosse o último ato de uma tragédia grega – com dignidade, com estilo, com postura que grita: “Eu estou aqui. E estou inteiro.”

E que o espelho, ao fim do dia, devolva não um homem comum, mas um personagem. Um que merece aplausos. Será?

Por Pedro Ernesto Macedo