Brasil | Bola de neve de dívidas

Terça-feira, 14 de Abril de 2026

Juro alto e falta de informação levam brasileiro a bola de neve de dívidas

Especialistas dão dicas; quem já passou pelo problema conta como endividamento vai se retroalimentando

O comprometimento da renda e o atraso para quitar dívidas estão em patamares recordes.

Sejam os indicadores do BC (Banco Central), Serasa ou da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), todos apontam um cenário crítico para as finanças pessoais do brasileiro. Em 10 anos, a inadimplência cresceu 38% no país, segundo dados da Serasa.

O comprometimento da renda e o atraso para quitar dívidas estão em patamares recordes.

Sejam os indicadores do BC (Banco Central), Serasa ou da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), todos apontam um cenário crítico para as finanças pessoais do brasileiro. Em 10 anos, a inadimplência cresceu 38% no país, segundo dados da Serasa.

O problema não é apenas da fotografia, é estrutural e passa por juros historicamente elevados e pouca educação financeira no país, segundo especialistas ouvidos pelo CNN Money.

“O vilão sem dúvida alguma não dá para deixar de falar do comportamento dos juros da nossa economia. [...] E não dá para esperar que o consumidor, dado o nível de educação financeira baixa no país, se conscientize do estrago que isso causa em suas finanças”, pondera Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.

O percentual de famílias endividadas atingiu 80,4% em março, marca que renova o recorde da série histórica da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), apurada pela entidade.

Dívida por dívida, o comportamento do consumidor que tem a renda apertada é de, geralmente, buscar empréstimos para quitar um anterior. E num cenário de taxas de juros elevadas, o tomador só acaba percebendo que se enfiou numa armadilha quando a “bola de neve” já está grande demais.

“O que torna a pessoa inadimplente são fatores externos - como cenário econômico, juros e desemprego - e internos - comportamento do consumidor e como lida com as finanças”, observa Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.

"Soma-se isso ao crédito com juros altos e mais facilitado e juntos viram uma bola de neve. Cada vez mais os brasileiros estão se endividando."

A sensação de que o cenário se assemelha a uma “bola de neve" é compartilhada tanto pelos especialistas quanto pessoas com problemas financeiros ouvidas pela reportagem. E quando imprevistos acontecem no meio do caminho, ela estoura.

É o caso de Antonio “Totti” Ramalhete, professor de Educação Física da rede pública que contou sua história ao CNN Money.

Em 2020, Totti montou uma vidraçaria junto da esposa. Aí veio a pandemia e crises familiares que acrescentaram o abalo emocional ao orçamento. Empréstimos e pagamentos com cartão de crédito começaram a se acumular para sustentar a empresa e os custos do cotidiano.

Esse foi o ciclo do professor “até entender que o peso dos juros é o que estava destruindo” sua estabilidade financeira.

Juros altos

Até a metade final de março, a Selic estava no maior patamar em duas décadas. Mesmo com o corte de 0,25 ponto percentual, a política monetária do BC segue restritiva, com a taxa básica de juros do país em 14,75% ao ano.

“Isso não mudou muito o cenário, pois a flexibilização leva tempo a se fazer sentir para os consumidores. E ainda assim, a expectativa para o final do ano é de que a Selic deve seguir alta”, pontua Bentes, ressaltando que, no nível em que estão, os juros levam as dívidas a dobrarem no período de um ano e meio.

E mesmo com as taxas elevadas, o brasileiro seguiu tomando empréstimos, como mostram dados do BC, que indicam recorde de saques por pessoas físicas no mês de dezembro de 2025. Enquanto isso, as famílias com renda comprometida para pagar dívidas bateu o maior nível da série histórica do Banco Central em janeiro.

O aperto monetário elevou os juros de forma disseminada, e as concessões já mostram sinais de desaceleração, com uma projeção de crescimento menor em 2026, segundo relatório da ABBC (Associação Brasileira de Bancos) adiantado com exclusividade à reportagem.

Mas até o arrefecimento, os atrasos registraram alta e houve piora da qualidade do crédito do brasileiro, segundo a ABBC.

O relatório destaca que houve avanço de linhas emergenciais (mais caras e arriscadas), alto endividamento, comprometimento de renda e sinal de estresse financeiro crescente no país.

Educação financeira

A artesã Vania Lima Bomfim conta que precisou fazer empréstimos consignados para compras e o financiamento de um carro. Mas quando imprevistos aconteceram, recorreu a ainda mais créditos para acertar sua vida. Porém, a saúde financeira acabou corrompida.

“Faltou um planejamento, uma educação financeira, levando as coisas de acordo como aconteciam. Até teve um planejamento, conquistei objetivos, mas não foi tão organizado como ideal”, reconhece.

Cerca de 9% das famílias brasileiras consideram que gastar menos do que ganham é uma boa conduta financeira e acham importante controlar os ganhos e despesas por meio de planilhas, segundo pesquisa realizada pela Dinx – ecossistema de educação financeira.

O levantamento também apurou que somente uma em cada quatro famílias afirma que organizar as contas é uma habilidade necessária.

Quando falta dinheiro, a pessoa acaba recorrendo ao crédito com condições facilitadas, mas que no fim tem um preço maior por conta de “juros abusivos”, alerta Gean Duarte, economista da Me Poupe!.

“O brasileiro não é acostumado a ter educação financeira, a dívida é consequência da falta de educação financeira. [...] As pessoas vão para créditos facilitados, e às vezes não sabem lidar com esse crédito. [...] Buscam um padrão de vida acima do que a renda condiz”, explica.

A “bola de neve” de dívidas formada pela falta de educação financeira e juros altos é vista de maneira concreta num ciclo de endividamento em que a pessoa volta a ter problemas mesmo depois de se reorganizar.

O número de inadimplentes no Brasil alcançou 81,4 milhões de pessoas em fevereiro, segundo dados da Serasa. O dado é o maior desde 2020 e representa 9 milhões de novos inadimplentes desde o fim do Desenrola, programa que o governo federal promoveu entre julho de 2023 e maio de 2024 para renegociar dívidas.

Nesse sentido, para além de uma maior conscientização e organização das finanças, Fabio Bentes avalia que as regras para concessões deveriam ser endurecidas.

“A taxa alta só retroalimenta o problema do endividamento e da inadimplência, então é preciso tirar as pessoas da vulnerabilidade para não ter um novo ciclo de endividamento”, afirma o economista-chefe da CNC.

“As necessidades de consumo são altas, e o consumidor não necessariamente vai ter aversão ao crédito. É necessário que se conscientize a tomar de forma mais responsável para o bem da economia”, conclui.

Entrave fiscal

O endividamento dos brasileiros deixou o governo federal e o sistema financeiro em estado de alerta. O problema é estrutural, não pontual, de modo que soluções de curto prazo não devem melhorar o cenário, segundo economistas ouvidos pelo CNN Money.

Para conter o endividamento, o governo está apostando todas as fichas na carta da liberação do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para pagamento de dívidas como parte do programa Desenrola 2.0.

"Isso é um paliativo. É para dar um fôlego de curto prazo para a população", declarou o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

Ele ressaltou que o momento político, com eleições se aproximando, favorece a implementação dessas medidas: "A gente está no ano eleitoral. É interesse do Congresso, é interesse do governo que isso avance o quanto antes para cada um dos agentes políticos falarem que tiveram parte em ajudar a população em um momento de crise".

Gabriel Barros, economista-chefe da ARX, avalia que a melhor forma de enfrentar o problema é reduzir os juros para toda a economia, não apenas para grupos específicos. E isso só será possível com medidas concretas de equilíbrio fiscal por parte do governo.

"Para reduzir os juros de forma estrutural, a gente precisa não só narrativa, não só retórica de equilíbrio fiscal, mas de medidas concretas que revertam o problema fiscal", afirmou Barros.

"A política fiscal é que define o tamanho dos juros na economia. A política fiscal é o piloto, a política monetária é sempre o passageiro. Então, os juros que o Banco Central define é sempre passageiro, é sempre auxiliar a política fiscal", pontuou.

CNN Brasil