Brasil | Ativos sem lastro
Quinta-feira, 02 de Abril de 2026
Contratos de R$ 6,3 bilhões entre Master e Tirreno tiveram firma reconhecida dois dias antes de serem apresentados ao BRB
Carteiras de crédito foram repassadas ao Banco de Brasília por R$11,5 bilhões. Investigações da Polícia Federal indicam que os ativos não possuíam lastro, ou seja, eram podres.
Um relatório interno do Banco Regional de Brasília (BRB) aponta que os contratos de operação de crédito entre o Master e a Tirreno tiveram firma reconhecida dois dias antes do banco de Daniel Vorcaro repassar a mesma carteira ao BRB.
Reconhecer firma é a forma de um cartório atestar que a assinatura em um documento é autêntica, confirmando que foi feita pela pessoa identificada.
Essas carteiras de crédito consignado da Tirreno foram compradas pelo Master por R$ 6,3 bilhões e repassadas ao BRB por R$ 11,5 bilhões.
Investigações da Polícia Federal (PF) indicam que os ativos não possuíam lastro, ou seja, eram podres.
As informações constam em um relatório produzido por um grupo de trabalho do BRB finalizado no dia 19 de maio de 2025, menos de dois meses depois do Banco de Brasília anunciar a intenção de adquirir 58% das ações Banco Master por R$ 2 bilhões.
A operação foi barrada pelo Banco Central, que liquidou o banco na mesma data em que prendeu Daniel Vorcaro.
Segundo o documento, no dia 5 de maio, o Master compartilhou com o BRB uma pasta com os contratos com a Tirreno.
No dia seguinte, o BRB solicitou o envio das cópias dos contratos devidamente registrados em cartório e pediu uma reunião para o dia 9 de maio.
Esse foi um dos encontros que, como mostrou o g1, o Master recusou e pediu reagendamento para 13 de maio.
A reunião aconteceu, mas sem a presença dos responsáveis com a Tirreno. Dois dias depois, em 15 de maio, o banco de Vorcaro enviou ao BRB uma pasta compartilhada com 26 contratos de cessão entre o Banco Master e a Tirreno.
O documento revelou que os contratos haviam sido assinados manualmente e que reconhecimento de firma ocorreu apenas no dia 13 de maio de 2025 — dois dias antes da reunião com o BRB e 19 dias após a última operação entre Master e Tirreno.
"A assinatura física e o reconhecimento posterior podem levantar questionamentos quanto à tempestividade e à formalização adequada dos documentos, sobretudo considerando o volume e a relevância financeira das operações envolvidas", diz um trecho do relatório do BRB.
O parecer do BRB também chama a atenção para a velocidade com que o Master comprava da Tirreno e repassava ao Banco de Brasília.
"Outro ponto que merece destaque diz respeito à dinâmica das cessões: os créditos são adquiridos pelo Banco Master e, já no primeiro dia útil subsequente, são transferidos ao BRB. Essa velocidade na revenda, embora possa refletir uma estratégia operacional definida, impõe a necessidade de atenção especial quanto à conformidade documental, à efetiva transferência de risco e à adequação contábil"
Como mostrou o g1, o Master chegou a fazer uma operação de compra de R$ 143,6 milhões da Tirreno em 4 de março, terça-feira de Carnaval, e repassou ao BRB por R$ 251,2 milhões na Quarta-feira de Cinzas.
As investigações da PF apontam que o BRB comprou um total R$ 12 bilhões em carteiras de crédito podres, que não pertenciam ao Master e não tinham garantias financeiras.
A suspeita é que o Banco Master não tinha fundos suficientes para honrar os títulos que emitiu, com vencimento em 2025. Comprou então créditos - sem realizar qualquer pagamento – da Tirreno para, em seguida, revender ao BRB.
Em diversas reuniões, o Master escondeu a Tirreno como originária dos créditos cedidos ao BRB. A equipe do Banco de Brasília só descobriu em uma visita técnica realizada nos dias 29 e 30 de abril de 2025 que as carteiras tinham a Tirreno como fonte e não o banco de Vorcaro.
G1








