Internacionais | Caso Epstein
Quarta-feira, 11 de Março de 2026
Brasileira conta como foi aliciada para Epstein em São Paulo por US$ 10 mil: Me negociaram para prostituição
Aviso: essa reportagem contém descrições de cenas de sexo
Ana saiu de casa aos 16 anos para perseguir o sonho de ser modelo. Chegou a trabalhar com uma agência no Sul do Brasil, mas um ano depois os trabalhos não apareciam.
Foi então que o dono da agência lhe disse que uma amiga de São Paulo, de outra agência, faria uma visita e gostaria de conhecê-la.
A conversa aconteceu e Ana conta que foi convidada a trabalhar na capital paulista.
Era o começo dos anos 2000 e a proposta pareceu boa. Seus pais apoiaram a decisão: ela moraria na casa dessa mulher, com outras meninas, e teria oportunidades na maior cidade do Brasil.
Ana, cujo nome verdadeiro não será revelado a seu pedido, diz ter embarcado para São Paulo, com passagem paga, pouco antes de completar 18 anos.
MPF abre investigação sobre possível conexão do Brasil com rede de Epstein
Quando chegou, a mulher que a convidou, que nesta reportagem chamaremos de Lúcia, pediu para ficar com seus documentos sob o pretexto de que faria um passaporte, conta a brasileira.
Segundo Ana, Lúcia passaria meses sem devolver sua documentação.
A mulher também anunciou, de acordo com Ana, que ela agora tinha uma dívida que precisaria saldar, já que sua passagem aérea havia sido paga, além de um book de fotos.
Ana disse que descobriu alguns dias depois que não havia nenhum trabalho de modelo no horizonte.
"A mulher era, na verdade, uma cafetina. A coisa foi se desenrolando e, quando eu vi, ela estava me negociando para prostituição", conta ela.
Um dos clientes, diz, foi o bilionário americano Jeffrey Epstein.
Anos depois, Epstein seria acusado de operar uma "vasta rede" de meninas menores de idade para fins sexuais.
O bilionário morreu em uma cela de prisão em Nova York em 2019, enquanto aguardava novo julgamento, uma década após já ter sido condenado como criminoso sexual.
Festa e hotel de luxo em São Paulo
O depoimento de Ana é o primeiro em que uma mulher conta ter sido aliciada para Jeffrey Epstein no Brasil
À BBC News Brasil, Ana descreveu encontros com o bilionário em São Paulo em um hotel de luxo, diz ter ido a um jantar e a ao menos uma festa na cidade com ele, além de ter feito viagens para outras partes do mundo para encontrá-lo.
A brasileira disse que lhe arranjaram emprego de fachada de modelo para que ela conseguisse um visto e pudesse ir aos EUA no começo da década passada.
Ela contou ainda que Lúcia, a que havia lhe prometido uma carreira na moda, cobrou US$ 10 mil de Epstein por seus serviços.
O relato de Ana foi corroborado por documentos apresentados por ela e cruzado com depoimentos e informações colhidos pela reportagem.
Parte das declarações também coincide com diferentes tipos de registros que compõem os arquivos do caso Epstein — um volume gigantesco de material divulgado pelas autoridades americanas desde novembro, em meio à pressão por novas investigações ligadas ao criminoso sexual.
Um auditor-fiscal do trabalho ouvido pela reportagem avalia que, em tese, a situação descrita por Ana poderia ser enquadrada como crime de tráfico de pessoas.
Se comprovado, potenciais envolvidos no Brasil no episódio ainda poderiam ser responsabilizados, já que existem normativas internacionais que apontam que esse tipo de crime não prescreve, diz o auditor.
Há neste momento uma investigação que apura se havia uma rede de aliciamento para Epstein no Brasil, aberta pelo Ministério Público Federal após a publicação de uma das reportagens que a BBC News Brasil vem publicando sobre o assunto.
O texto mostrou que o bilionário financiou e manteve contato com modelos no país, de acordo os arquivos. Os documentos também contêm depoimentos à Justiça americana no qual testemunhas dizem que o americano teria levado até ele nos EUA garotas menores de idade brasileiras.
Já a brasileira Marina Lacerda, que mora nos EUA desde pequena, contou à reportagem ter sido aliciada por Epstein quando tinha apenas 14 anos, ao lado de outras garotas imigrantes e vulneráveis na região de Nova York.
No começo de março, outra reportagem da série mostrou que o agente de modelos francês Jean-Luc Brunel, próximo a Epstein ao menos desde os anos 1980, atuou no Brasil recrutando uma adolescente para participar de um concurso de modelos no Equador em 2004. A garota contou que só não viajou com ele para Nova York porque foi proibida pela mãe.
Segundo as autoridades, Brunel usava sua agência para atrair mulheres para o bilionário — e o francês acabaria ele mesmo acusado de estuprar e assediar mulheres, o que sempre negou. Preso na França, ele morreu em 2022 na cadeia, sem ter sido julgado.
Brunel é uma peça central no relato de Ana a seguir.
'Ele me escolheu'
Ana conta que pensou em pedir ajuda aos pais quando viu que a carreira de modelo em São Paulo era, na verdade, uma promessa vazia.
"Não sabia como falar para minha mãe que me meti em uma enrascada. Eu queria voltar pra casa, mas não tinha como", diz.
"Ela [Lúcia] estava com meus documentos. Eu não tinha dinheiro. Ela é quem poderia pagar minha passagem de volta. Eu estava na mão dela."
A brasileira se lembra do nome e do sobrenome da mulher, mas não sabe dizer se essa identidade era verdadeira. Por isso, e também porque se trata de nome comum, escolhemos um nome fictício para ela.
Ana relata que, certo dia, Lúcia a convidou para ir à casa de um grande empresário brasileiro, em São Paulo — ela pediu que o nome desse empresário não fosse divulgado para reduzir o risco de ser identificada.
"Ele me chamou para falar do Epstein, que tinha um cara muito importante, o rei do mundo, chegando..."
"Ele gosta de meninas mais novas", ela diz ter ouvido do empresário.
Ana acredita que foi sua idade que a levou a ser chamada para a casa, já que era a mais jovem do grupo com quem morava — ela fez 18 anos poucas semanas antes de se encontrar com Epstein pela primeira vez.
Passados alguns dias do encontro na casa do empresário, Ana conta que ela e outras duas garotas que viviam com ela foram levadas por Lúcia a um hotel luxuoso no Jardim Paulista, região nobre de São Paulo.
A ideia, relata Ana, é que conhecessem Epstein e que ele escolhesse com qual mulher gostaria de ficar.
"E aí ele me escolheu."
Depois de ser escolhida, Ana conta que subiu ao quarto do hotel paulistano com Epstein. Foi quando relatou um primeiro ato sexual — ele pediu que ela tirasse a roupa e começou a se tocar.
"Comparado com os outros homens com quem estive antes, ele foi muito legal. Não teve ato sexual em si. O barato dele, pelo menos das vezes em que estive com ele, era ficar me olhando enquanto ele se tocava. Era nojento, mas...dos males, o menor."
Ana diz que Epstein a achou muito bonita e então a convidou para uma festa que aconteceria alguns dias depois. Ela já falava inglês, ainda que sem fluência, e disse que ele chegou a lhe pagar aulas.
Ela conta que não se lembra exatamente onde esse evento ocorreu, mas que pode ter sido na região da avenida Brigadeiro Faria Lima, distrito financeiro e que abriga empresas tecnológicas em São Paulo. "Era um prédio que tinha a ver com investimentos."
Ana descreve que, ao chegar, viu que Epstein a esperava na frente do edifício. "O prédio era todo cheio de câmeras. Ele ainda fez um comentário: 'É muito seguro aqui, né?'"
Foi nesse dia que Ana contou ter conhecido também Ghislaine Maxwell, companheira e cúmplice de Jeffrey Epstein, e Jean-Luc Brunel, o agente de modelos francês acusado de aliciar meninas para o criminoso.
A BBC News Brasil encontrou nos arquivos do Departamento de Justiça dos EUA um e-mail de Ghislaine Maxwell na qual ela comenta uma visita a São Paulo na mesma época citada por Ana.
Nas mensagens, Maxwell conversa com um alto executivo de uma multinacional, e conta a ele que ficaria hospedada no hotel de luxo mencionado. Eles comentam sobre uma festa. A BBC News Brasil confirmou com o interlocutor que a conversa e a viagem de Maxwell de fato existiram.
A ex-companheira de Epstein, negou ter cometido crimes, mas está atualmente cumprindo uma pena de 20 anos de prisão após ser condenada em 2022 por recrutar e traficar adolescentes para abuso sexual pelo bilionário.
Ana diz que não tem muitas memórias desse dia em São Paulo, mas que havia muitas modelos no evento. Na sua lembrança, Ghislaine Maxwell e Epstein não pareciam ser um casal.
Foi durante a festa que Ana diz ter sido informada por Epstein: "Amanhã estou indo a Paris e você vai junto comigo. Já combinei com a Lúcia.
Fonte: G1








