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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2018

O brasileiro que perdeu a casa em enchente no Japão e há dois meses dorme em uma escola

As duas filhas de Maurício Abe Pereira literalmente moram na escola. Desde que a família foi obrigada a se abrigar no colégio depois de ter a casa inundada em Kurashiki (província de Okayama), as meninas de 6 e 10 anos fazem as três refeições do dia, estudam, brincam, tomam banho e dormem no local, em camas feitas com caixas de papelão.

Os pais passam o dia fora trabalhando - ele em fábrica e ela como professora de inglês -, e todos se reúnem no fim do dia no grande ginásio. Se tem roupa suja, as máquinas de lavar instaladas na escola dão um jeito. Essa rotina já dura dois meses.

"Ninguém reclama, mas dá para sentir que elas estão cansadas disso tudo", diz Maurício. Ele, a esposa, as duas meninas e o filho maior universitário ficaram desabrigados com milhares de japoneses e foram para a escola do distrito de Mabi no dia 6 de julho. A data é inesquecível não só pela tragédia. "Era meu aniversário de 42 anos. O bolo estragou com a geladeira que foi destruída quando a água invadiu minha casa", conta o brasileiro.

Mauricio Abe Pereira (de boné) e família vivem no ginásio da escola há dois meses — Foto: Arquivo pessoal

Mauricio Abe Pereira (de boné) e família vivem no ginásio da escola há dois meses — Foto: Arquivo pessoal

De norte a sul do país, há milhares de pessoas que foram forçadas a deixar suas casas após serem surpreendidas por algum tipo de desastre natural. Segundo a Agência de Reconstrução do Japão, esse número supera 80 mil e oscila de acordo com o tempo. O maior contingente é formado pelas vítimas do terremoto seguido de tsunami e acidente nuclear ocorridos no dia 11 de março de 2011, na região leste do arquipélago japonês. Passados sete anos e meio dessa tripla tragédia, cerca de 60 mil pessoas ainda estão deslocadas da região, sendo que 5.623 residem em moradias temporárias.

A paranaense Fabrícia Matsuda também passou por um susto com dezenas de outros brasileiros na cidade de Joso (província de Ibaraki). Alguns ficaram ilhados e foram socorridos de helicóptero. Ela não ficou ilhada, mas como muitos conterrâneos, viu a casa ser parcialmente destruída por um temporal em setembro de 2013.

Embora estivesse monitorando as fortes chuvas, não passava pela cabeça de Fabrícia que o rio próximo à sua casa pudesse encher e a água destruir a cidade. Isso aconteceu quando a barragem cedeu e uma área de 37 kilômetros quadrados de Joso foi inundada, danificando 6.500 casas.

"Já passamos pelo assustador terremoto de 2011 e o tsunami. Mas ver pela tevê, e de longe, era uma coisa. Pessoas tendo que sair de suas casas desesperadas fugindo da água - você nunca imagina que isso possa acontecer com você", diz.

A água deixou marcas até a altura de 1,4 metro nas paredes, destruindo tudo o que havia no primeiro andar, inclusive o que a família pretendia levar na viagem ao Brasil marcada dali a um mês.

A família de Fabrícia e outros três parentes tiveram que buscar abrigo. Eles se juntaram a um grupo de brasileiros no estacionamento próximo a uma casa de banho, pensando que teriam lugar para se banhar, poderiam dormir no carro e voltar à casa no dia seguinte. Porém, passaram mais tempo desabrigados do que o previsto. Foi um fim de semana em um abrigo, e 24 dias em outro na cidade de Tsukuba (província de Ibaraki). "Eu me surpreendi com a organização no local e a solidariedade das pessoas em volta."

Recebiam três refeições por dia, banho quente e calor humano. A preocupação de Fabrícia era com as crianças que, na época, estavam com 1 e 5 anos. "Para tranquilizá-las, eu falava que iríamos voltar logo para a casa. Só que conforme o tempo passava, a menina começou a cobrar mais."

Com Maurício, acontece algo semelhante hoje. Mas é a esposa quem mais o pressiona para sair logo do abrigo temporário. "No começo tinha mais gente, até amiguinhas das minhas filhas. Só que agora somos poucos e quase todos idosos", diz.

Ele está há 22 anos no Japão, sendo que ficou 15 na região central do país, em Saitama, até sentir os efeitos do terremoto e tsunami de 2011. "Não perdemos nada, mas achei que lá era muito perigoso, por isso resolvemos nos mudar para Kurashiki, cidade da província de Okayama sem histórico de grandes tragédias."

O brasileiro até comprou um sobrado, assumindo financiamento de 35 anos. Porém, no segundo ano no imóvel, a chuva recorde e histórica provocou enchentes, deixando quase todo o distrito de Mabi tomado pelas águas.

No Brasil, Maurício morou perto do Parque Edu Chaves, zona norte de São Paulo, onde acumulou vários prejuízos com enchentes. "A diferença é que aqui no Japão recebo assistência para recomeçar a vida pós-tragédia", diz.

Ele espera pegar logo as chaves de um apartamento da prefeitura para levar a família enquanto decide o que fazer com o sobrado que é quase seu. "O estrago foi grande. Mas só para a reforma, uma empresa quer cobrar muito mais do que pago pela construção. Assim não dá", reclama.

Barreiras

Até o ano fiscal de 2020, o governo central quer concluir 30 mil moradias públicas para as vítimas do triplo acidente ocorrido no Leste do Japão, porém, já prevê atraso no cronograma de entrega das obras, principalmente na província de Fukushima. Até o último dia 11, quando a tragédia completou sete anos e meio, 29.124 casas públicas (96,5% do total) destinadas a essas pessoas estavam finalizadas.

São vários desafios para a reconstrução da área devastada. Sete cidades e vilarejos localizados no entorno da acidentada usina nuclear de Fukushima apresentam nível de radiação que dificulta o retorno de antigos moradores. O desconforto e o medo de contaminação ainda são grandes, e nem todos estão dispostos a recomeçar a vida na área engolida pelo tsunami.

A situação não é diferente em outras regiões. Na província de Kumamoto (sul do Japão), 28 mil pessoas que deixaram suas casas atingidas pelo terremoto de abril de 2016 continuam em moradias provisórias. Em janeiro deste ano, o governo local iniciou a construção de 1.734 habitações que só poderão ser entregues em 2020. Até lá, os desabrigados estarão em casas de parentes ou moradias improvisadas.

Quem mora em um país insular sabe que não tem muitas opções de fuga. Com o tempo, aprende-se a conviver com todo tipo de intempéries. "Escolhi o Japão para educar meus filhos. Vou reformar a casa e tentar voltar à vida de antes", diz Maurício, que ainda quer comemorar o aniversário atrasado.

G1

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