Esporte | Dos limões à Arena

Quinta-feira, 08 de Novembro de 2018

Jean Pyerre evolui com psicóloga e rasga rótulo de "preguiçoso" no Grêmio

Os churrascos da família Casagrande Silveira Correa talvez tenham sido o palco das jogadas mais absurdas do menino Jean Pyerre. Já no Grêmio, mas muito longe do time titular, o guri aproveitava o gosto do pai por caipirinha para treinar o controle de bola e a habilidade.

Os limões viravam bolas de futebol, "amaciados" pelos pés do menino Jean e do irmão mais velho, antes de entrar na mistura da bebida. Dali pode ter surgido a qualidade técnica acima da média do meia de 20 anos, provável substituto de Luan contra o Vasco, no domingo, às 17h, na Arena.

Jean Pyerre cresceu, virou jogador de futebol, mas age como se fosse o mesmo moleque perto da churrasqueira de casa. Desassombrado, garante que já se acostumou a situações consideradas de nervosismo para outros jovens. Entrou em um Beira-Rio lotado e melhorou o time do Grêmio. O mesmo aconteceu no último sábado, na vitória sobre o Atlético-MG.

A tranquilidade em campo, que uma parcela dos gremistas credita a uma suposta "preguiça", aprendeu atuando contra os mais velhos, afirma. Recentemente, antes de subir novamente da base ao profissional, diz ter aprendido a se posicionar melhor em campo. Até mesmo a psicóloga do clube, Fernanda Faggiani, contribuiu para o momento alentador.

Na última rodada, você foi titular em chance com o elenco principal. Como foi a experiência e como ficou sabendo que ia jogar?

Jean Pyerre - Eu estava no mesmo quarto que o Matheus (Henrique). Pouco antes do almoço, veio o professor Alexandre Mendes (auxiliar), conversou com a gente, avisou que íamos sair jogando, que era mérito nosso. Fiquei muito feliz com a oportunidade de sair jogando mais uma vez lá no Independência. Fruto do meu trabalho e de tudo o que eu venho fazendo até agora.

Falava-se muito de você jogando por trás, como volante, e agora se encaixou como meia. Qual a posição ideal, que você gosta de jogar?

Tanto como volante quanto como meia, são funções que consigo fazer. Quando jogo de meia, puxo ainda para o lado do volante, porque gosto de vir pegar esta bola muito atrás. Trabalhei muito isso, minha chegada na área, coisas que eu tinha pouco, finalização a gol, porque eu sempre optava por um passe. Não tenho preferência por posição, nas duas consigo me adaptar fácil.

Mas você trabalhou essa parte mais ofensiva, de jogar mais para frente. Você fica com menos espaço para jogar?

Jogando de volante, 90% dos momentos do jogo pega a bola de frente, vê o que está acontecendo. Como meia, é um pouco mais difícil, às vezes está de costas para o adversário. São coisas básicas que acaba aprendendo, jogando em uma posição ou outra. Mas tudo tranquilo.

O que você mais ouve de dica e orientação?

Eu ouço muita coisa, aprendo muita coisa. Pessoal fala bastante para eu chutar a gol, trabalhar a intensidade dentro de campo. Minha entrada na área, coisas básicas para poder chegar a um nível maior.

Como é a relação com as lideranças do Grêmio?

O suporte temos de todos, acolhem a gente muito bem, não só os líderes. Por exemplo, o Paulo Victor (goleiro) está sempre conversando com a gente. O Maicon conversa comigo diariamente, está sempre me ajudando. A gente se sente em casa.

Como é a responsabilidade de subsituir o Luan?

Acho que é muito tranquilo. Lógico que o Luan é um grande jogador, tem já uma história aqui. Procuro me espelhar nos passos dele, me ajuda também. Não boto pressão nenhuma que tenho que substituí-lo. Procuro fazer meu jogo, tenho minha característica e ele, a dele. A gente ajuda cada um da sua maneira.

No Gre-Nal, você entrou no lugar dele (Luan). Mostra frieza, tranquilidade. De onde vem isso?

Sempre fui de manter a calma. As pessoas confundem até como se fosse preguiçoso ou alguma coisa assim em campo. Mas é porque estou muito calmo, independente da circunstância. Aprendi a lidar com a adversidade. É um fator positivo, fico tranquilo com isso.

Tinha uma expectativa na virada do ano para o seu futebol. Quando se esperava que o Jean Pyerre seria aproveitado, você ficou no time de transição. O que mudou?

O começo do Gauchão foi um momento que a gente vinha bem, mas talvez tenhamos nos perdido um pouco por causa da experiência. Às vezes, cometíamos alguns erros. Aprendi na transição a me posicionar melhor em campo, a não ter uma corrida desnecessária, a me posicionar melhor taticamente. Uma mudança fora de campo também, o trabalho com a psicóloga, que sempre me ajudou. Foram coisas mínimas que foi ajustando e deu certo.

A psicóloga é do clube ou você foi procurar com a família?

É da estrutura do clube. Foi quem sempre me ajudou quando estava na base, quando vim para a transição também, no começo do Gauchão, quando as coisas não deram certo. Hoje mantenho contato com ela, procuro conversar. Me ajuda muito, e isso é muito importante.

Você amadureceu fora de campo, dá para dizer assim?

Nunca tive muitos problemas extracampo, foi mais ajuda deles para dizer "calma", para eu saber esperar meu momento. Que talvez eu tinha que passar por aquilo ali para viver o que estou vivendo hoje.

O Thiago Gomes, técnico do time de transição, tem influência neste teu crescimento?

Desde que o Thiago chegou aqui, me chamou para conversar, disse que estava aqui para me ajudar, me acolheu muito bem, tanto ele quanto o (Luiz) Gabardo (Júnior, auxiliar do time de transição). Precisava melhorar entrada na área, cabeceio, não descer tanto para buscar a bola. Hoje acho que mudei muito por causa disso. Ele insistiu bastante, pegou no meu pé e acho que deu certo.

A gente ouve e fala de você faz muito tempo. Isso dificulta as coisas, já ter expectativa em cima?

Não tem peso nenhum. Assim como tem os elogios, sempre tem as críticas. Procuro conciliar tudo isso. Lógico que quando escuto um elogio, fico feliz, mas não deixo me levar por causa disso. Vou procurando sempre manter a cabeça no lugar, os pés sempre no chão, muito tranquilo.

Você parece lidar bem com isso. De onde vem?

Sempre tive o suporte da minha família. Lógico que meus pais, meus irmãos sempre ficam felizes. Os elogios vêm, vão te ajudar, mas se te deixar levar por isso, pode tudo se perder. Sempre foi muito conversado isso, bem esclarecido.

Espera que 2019 seja o seu ano?

Espero que sim. Mas se não for, se tiver que esperar como foi neste ano, vou esperar tranquilo. Aprendi que as coisas vêm na hora certa.

Você brincava com limão na infância, como se fosse bola de futebol. Que história é essa?

Toda vez que ia ter churrasco lá em casa, meu pai gosta de tomar caipirinha. Gostava, né. Agora parou. Sempre tem que amaciar o limão. Ele jogava para mim e falava: "faz aquela mão para o pai". Ficava jogando, eu e meu irmão mais velho. Toda semana, pelo menos uma vez eu jogava com limão. Fazia embaixadinha, jogava no chão, igual uma bola de futebol.

Como é a brincadeiras dos "guris" no vestiário?

A gente tem uma parceria muito boa que traz desde a base. Eu, Matheus Henrique, Pepê, o Thonny Anderson, que chegou esse ano. A gente procura se ajudar. Essa brincadeira do "é os guri" até os mais velhos brincam. Se a gente vai no bobinho e erra, eles falam. É tudo "os guri" (risos).

No ano passado, houve o episódio do incêndio em sua casa. Como foi passar por aquele momento?

Quando meu pai abriu a porta de casa, saiu aquela fumaça. Fui na janela e olhei, a casa estava pegando fogo, mais na parte da sala. E nosso susto é que não sabíamos se a mãe tinha voltado para casa ou não. Alguém disse que ela não estava. A gente ficou mais tranquilo, daí. Vimos tudo pegando fogo, foi muito impactante para a gente. E passamos a tarde ali, feliz, por causa do jogo.

Foi por causa de um raio. Não tinha aterro embaixo da casa, não suportou. Estourou nos fios do telefone. Continuamos na mesma casa, trocamos móveis e tudo o que tinha dentro dela. Conseguimos dar a volta por cima, hoje está tudo bem. Esse episódio marcou muito a gente, mas passou. Pela cena, foi forte, perder tudo em um momento feliz. Mas pelo outro lado, tivemos ajuda de muitas pessoas. Aí foi tranquilo.

Globo Esporte

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