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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2018

Israel revela plano de anexar assentamentos

Um comentário feito nesta segunda (12) pelo premiê israelense, Binyamin Netanyahu, expôs rixas antes invisíveis entre ele e o presidente americano, Donald Trump. Em reunião com líderes de seu partido, o conservador Likud, Netanyahu revelou estar coordenando, com o governo americano, uma possível anexação de assentamentos israelenses da Cisjordânia, território ocupado por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967).

"Sobre o tema da aplicação da soberania, posso dizer que tenho conversado com os americanos sobre isso há algum tempo", disse Netanyahu. "Estamos coordenando com os americanos porque, primeiro, a conexão com eles é estratégica para o Estado de Israel e para os assentamentos. E, segundo, é preciso ser uma iniciativa do governo e não uma privada, já que é uma medida histórica."

O comentário levou a uma rápida onda de reações negativas entre os palestinos: "Qualquer movimento unilateral no contexto da imposição do controle israelense sobre os assentamentos não mudará a realidade de que os assentamentos são ilegais e tais medidas só levarão a um aumento de tensão", disse Nabil Abu Rudeina, porta-voz do presidente palestino, Mahmoud Abbas.

"A anexação de terras palestinas por parte de Israel significaria a negação dos direitos inalienáveis do povo palestino à autodeterminação e independência", reagiu o negociador de paz palestino, Saeb Erekat.

Pouco depois das palavras do premiê, no entanto, a Casa Branca negou qualquer tipo de coordenação: "Os relatos de que os EUA discutiram com Israel um plano de anexação para a Cisjordânia são falsos", disse o porta-voz, Josh Raffel. "Os EUA e Israel nunca discutiram essa proposta, e o foco do presidente permanece em sua iniciativa de paz israelo-palestina."

Pressionado, o premiê israelense teve de divulgar um raro comunicado oficial na tentativa de explicar o disse-me-disse: "O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu atualizou os americanos sobre as iniciativas criadas no Knesset [Parlamento israelense], e os americanos expressaram sua posição inequívoca de que estão empenhados em promover o plano de paz do presidente Trump".

Trata-se da primeira grande crise entre Netanyahu e Trump, que pareciam desfrutar de uma lua de mel desde a posse do americano, em janeiro de 2017 –e que teve como ponto alto o reconhecimento de Washington a Jerusalém como capital de Israel.

Na sexta (9), Trump deu uma entrevista o jornal pró-Netanyahu "Israel Hoje" na qual afirmou que os palestinos "não estão em busca de fazer paz, neste momento".

Mas também disse não estar "necessariamente certo" de que Israel esteja genuinamente procurando um acordo de paz. Trump afirmou que os assentamentos "são algo que complicam muito e sempre complicaram alcançar a paz": "Acho que Israel tem de ter muito cuidado com os assentamentos".

ABBAS

A declaração de Netanyahu coincidiu com encontro em Moscou de Mahmoud Abbas com o presidente russo, Vladimir Putin. Segundo a agência Interfax, Abbas disse a Putin que não pode mais aceitar a mediação dos EUA nas negociações com Israel.

"Recusamo-nos a cooperar de qualquer forma com os EUA em seu status de mediador, pois somos contrários a suas ações", disse Abbas. O palestino afirmou ainda que gostaria de ver a criação de um novo mecanismo de mediação para substituir o Quarteto, que reúne EUA, Rússia, União Europeia e ONU.

Putin ligou para Trump nesta segunda para discutir a questão israelo-palestina, mas o teor da conversa não foi divulgado.

O comentário de Netanyahu coincide ainda com o espancamento de dois soldados israelenses que entraram por engano na cidade palestina de Jenin por orientação do aplicativo de navegação Waze. Os militares foram resgatados por policiais palestinos.

Mas a comoção nacional após a divulgação de vídeos mostrando a soldada aos berros elevou ainda mais a tensão, já em alta com a queda de um avião israelense na fronteira com a Síria e o assassinato de um rabino que esperava um ônibus perto do assentamento de Ariel, dia 5.

Folha Press

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