Brasil | Manifestação de Lula
Domingo, 04 de Janeiro de 2026
Demora de manifestação de Lula horas após ataque revela América Latina sem poder de reação nem mesmo diplomática, diz especialista
Cerca de sete horas após o inédito ataque dos Estados Unidos à Venezuela e captura do presidente Nicolás Maduro neste sábado (3/1), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se manifestou criticando a ação americana.
"Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional", postou na rede social X, às 9h59 deste sábado.
"Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo", continuou Lula.
Caracas foi bombardeara por volta de 2 horas da madrugada, no horário local (3h no horário de Brasília).
"A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões. A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz", continuou Lula.
"A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação", concluiu o presidente.
A demora na manifestação de Lula ocorre num momento de estremecimento de sua relação com o antigo aliado venezuelano e de aproximação com o governo de Donald Trump.
À BBC News Brasil, o Itamaraty disse que ainda está apurando os acontecimentos na Venezuela para se manifestar. Nos últimos meses, durante a escalada da tensão entre os EUA e o país vizinho, fontes do Palácio do Planalto garantiam que a gestão Lula não deixaria de condenar um ataque ao território venezuelano.
"Esse não posicionamento ou posicionamento tardio mostra a dificuldade do governo brasileiro em retomar a envergadura do Brasil dos anos anteriores, especialmente nos governos I e II de Lula", disse à reportagem Marsílea Gombata, professora de relações internacionais da FAAP e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI) da USP.
"Infelizmente, uma das primeiras manifestações na região veio do presidente argentino, Javier Milei, que comemorou o ataque exaltando a 'liberdade'", continuou.
Na sua avaliação, faz falta nesse momento instituições fortes de articulação regional, como foi no passado a União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
"Lembremos que alguns momentos de tensão importantes tiveram a Unasul como um instrumento de mediação fundamental, como a crise da (Assembleia) Constituinte de 2008 na Bolívia", disse ainda.
Já o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, disse mais cedo que conversou com o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e que ele condenou os ataques.
"Conversei por telefone com o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, que expressou sua forte condenação a este ato sem precedentes de agressão militar criminosa contra o nosso povo. Agradecemos sinceramente suas manifestações de solidariedade", postou Yván Gil na rede social X.
Para a professora Marsílea Gombata, são aguardados momentos tensos na Venezuela.
"Domesticamente, coalizões do chavismo e atores cruciais não ficarão parados. Eles se beneficiavam de Maduro no poder, e a não existência disso pode ser um problema. Ou seja, não serão dias e semanas tranquilas. Nem para os EUA."
"Globalmente, China e Rússia, grandes aliados da Venezuela madurista, devem se manifestar prontamente condenando os ataques americanos. Resta ver o que estão dispostos a fazer", continuou.
BBC








