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Domingo, 26 de Setembro de 2021

Chilenos protestam contra imigrantes e queimam pertences de venezuelanos

Cerca de três mil pessoas foram às ruas neste sábado (25) em protesto contra a imigração ilegal na cidade de Iquique, norte do Chile, um dia depois da violenta desocupação de uma praça onde várias pessoas, a maioria venezuelanos com crianças, dormiam em barracas.

Em um clima de aberto repúdio aos imigrantes venezuelanos, os manifestantes entoaram o hino da cidade e agitaram bandeiras chilenas, assim como a Whiphala, pavilhão colorido dos povos originários andinos.

Também cantaram e exibiam cartazes com lemas como: "Chega de Imigração Ilegal" e "O Chile é uma república que se respeita".

A partir da Praça Prat, no centro histórico de Iquique, os manifestantes marcharam por dez quarteirões até a praia banhada pelo oceano Pacífico, onde os carabineiros tiveram que controlar agressões de chilenos contra os venezuelanos em situação de rua.

Desde a manhã de sábado (25), os imigrantes tentavam se esconder em outras áreas deste balneário para evitar os manifestantes, constataram jornalistas da AFP.

Outros manifestantes radicais se dirigiram a um pequeno acampamento de venezuelanos - que não estavam no local - e queimaram em uma barricada seus poucos pertences: barracas, colchões, bolsas, cobertores, brinquedos.

"Eu sou nascido, criado e mal-criado em Iquique. Sempre vivi nesta região do norte e isto que estamos vivendo é terrível porque o problema é que na Venezuela abriram as prisões e parte dessa gente chegou ao Chile", disse à AFP Veliz Rifo, um agricultor de 48 anos de La Tirana, povoado em uma espécie de oásis no deserto 72 km a leste de Iquique, fazendo menção a uma informação falsa.

"O pior é que este governo do Chile deixou isto crescer e os que chegaram não são refugiados políticos, nem imigrantes que contribuem com seu trabalho, aqui chegaram muitos delinquentes", acrescentou, lamentando, assim como muitos manifestantes, o aumento dos assentamentos erguidos pelos imigrantes com caixas de papelão e folhas de zinco nos arredores desta cidade portuária a quase 2.000 km de Santiago.

Outros manifestantes pediam que os mais violentos respeitassem o ato pacífico, enquanto nos restaurantes do centro histórico, garçons venezuelanos e clientes chilenos viam de longe a cena, que denominaram como "triste".

"Nem todos os venezuelanos roubam, nem todos os chilenos nos odeiam", diziam em uma mesa do Café Francesco da Praça Prat.

Ação policial

O protesto ocorreu um dia depois do desalojamento da Praça Brasil, onde há um ano pernoitam os migrantes mais pobres e sem documentos que não conseguem chegar a Santiago e sobrevivem vendendo balas, pedindo esmolas ou limpando vidros dos carros nos sinais de trânsito da cidade.

Na operação policial, repudiada por autoridades locais e organizações humanitárias, Jeremy, um menino venezuelano de 4 anos, ficou 24 horas desaparecido. Ele era procurado na manhã deste sábado (25) por carabineiros, que mostravam fotos da criança aos pedestres na praia. Finalmente, o menino foi encontrado.

"Menos mal que encontraram o menino, mas isto resume a má gestão de todo esse drama humanitário, o governo pensa que é só deportar alguns e desalojá-los de uma praça", queixou-se Franklin Pérez, administrador de um prédio no centro de Iquique.

O governador da região de Tarapacá, José Miguel Carvajal, culpou o governo do presidente Sebastián Piñera pela crise migratória no norte do país, queixando-se que nem ele, nem o prefeito da cidade foram alertados do desalojamento de sexta-feira, que gerou o repúdio de uma parte da população.

"As cem famílias na Praça Brasil hoje estão perambulando em diferentes espaços públicos; estão realocando-se com amigos, próximos, com quem vão se alojar novamente com barracas nas praias de Iquique, e outros estão se mobilizando para assentamentos em Alto Hospicio", zona industrial nos arredores de Iquique.

A colônia venezuelana é a mais numerosa do Chile, com mais de 400 mil pessoas, embora estime-se um número muito maior devido ao aumento de entradas por corredores clandestinos desde 2020, quando o Chile fechou suas fronteiras por causa da pandemia.

Além disso, o governo chileno deu uma guinada em sua política de solidariedade com os venezuelanos, defendida pelo presidente Piñera em 2018, inclusive oferecendo vistos exclusivos para que os venezuelanos "tivessem oportunidades no Chile".

Desde então, diminuiu drasticamente a aprovação de qualquer visto para quem viaja da Venezuela, depois veio o fechamento de fronteiras pela pandemia e muitos venezuelanos começaram a chegar após viverem por alguns anos em Colômbia, Equador e Peru.

As chegadas de pessoas ao Chile por passagens clandestinas somaram 23.673 até julho, quase 7 mil a mais do que em todo o ano passado, segundo o relatório do Serviço Jesuíta aos Migrantes (SJM) no mês de setembro.

AFP com G1