Contando Histórias

30.08.2016

Famílias de Afrodescendentes Silva e Rocha são partícipes na formação histórica/cultural do Município de Santa Helena, no Paraná

Doralice L. da Silva narra a trajetória histórica numa entrevista.

Na segunda-feira 04 de abril de 2016 eu, Professor João Rosa Correia (História), entrevistei a pioneira Santa Helenense Sra. Doralice Leandro da Silva em sua residência, na Linha Coroados, interior do Distrito de São Clemente, município de Santa Helena. A entrevistada relatou diversos aspectos relacionados à sua vida, bem como dos seus familiares.

Dona Doralice iniciou dizendo que nasceu no dia 17 de abril de 1946 em São José do Belmonte – Pernambuco. Fez questão de dizer nomes de seus avós paternos: José Leandro da Rocha e Vicência Gomes Rocha. Estes foram agricultores no Estado de Pernambuco no município de Serra Talhada onde possuíam uma Fazenda. A propriedade rural fazia divisa com a Fazenda de José Ferreira, pai do lendário cangaceiro nordestino Virgulino Ferreira “Lampião”. Pais de Doralice: Antônio Leandro Rocha e Ana Maria Rocha (esta faleceu aos 99 anos de idade, na residência de Doralice na Linha Coroados).

Relatavam seus pais, que seus avós, além de serem vizinhos dos familiares de Lampião, mantinham entre eles laços de amizade e respeito. Inclusive visitavam uns aos outros em suas respectivas residências. Nestes encontros informais às vezes negociavam animais domésticos. Os pais de Doralice diziam também que Lampião resolveu formar um grupo de pessoas que ficou conhecidos por Cangaceiros, (daí Cangaço) motivado pelo assassinato de seu pai - José Ferreira - por outro vizinho de propriedade em razão de desavenças de limites de terras.

*Cangaço foi um fenômeno do banditismo brasileiro ocorrido no nordeste do país em que os homens do grupo vagavam pelas cidades em busca de justiça, vingança, pela falta de emprego, alimento e cidadania causando o desordenamento da rotina dos camponeses. O termo cangaço vem da palavra canga (peça de madeira usada para prender junta de bois a carro ou arado).

Lampião ficou indignado com a absolvição do fazendeiro que assassinou seu pai. Entendia ele (Lampião) que a justiça havia sido “comprada”, nesta circunstância o assassino ficou livre da prisão, era sua conclusão. Diante disso, declarava abertamente no município de Serra Talhada, o que houve foi uma grande injustiça. Lampião reuniu seus familiares e os disse que repararia aquela injustiça a qualquer “preço”. Rapidamente conseguiu reunir um contingente de seguidores sob seu controle. Lampião e sua “gente” (cangaceiros) passou a percorrer não só o Estado de Pernambuco, mas também os demais estados nordestinos no intuito de combater injustiças, no entanto, nas andanças pelos Estados Nordestino acabou cometendo algumas atrocidades por onde percorreram. Ressaltou Doralice, pela amizade entre os Rochas e os Ferreiras, seu avó José Rocha chegou doar alimentos à Lampião, bem como alimentou sua “tropa” quando às vezes estes passavam pela residência da família.

Ainda de acordo com Doralice, seus pais ao longo de suas existências trabalharam nas atividades agrícolas, porém, a mãe de Doralice, Ana Maria como é peculiar às nordestinas, além de agricultora trabalhava de tecelã, confeccionava roupas, redes de dormir, colcha e rendas. As peças confeccionadas serviam para atender as necessidades da família e o excedente negociava com os interessados de seus produtos, afirma Doralice.

Ainda sobre sua mãe, Doralice comentou que no passado a população interiorana do Brasil vivia desprovida do atendimento médicohospitalar, uma vez que as autoridades brasileiras pouco se preocupavam em prestar este serviço ao povo. Neste aspecto quem compunha os extratos mais baixos da sociedade ficava a mercê da sua própria sorte. Sendo assim, Ana Maria procurava aliviar o sofrimento do corpo e da alma daqueles que fossem acometidos de alguma enfermidade, oferecendo-lhes gratuitamente chás caseiros fabricados por ela.

Sua disposição em atender o povo não parava por aí, benzia crianças, jovens, adultos e até conforme a gravidade de um acidentado realizava cirurgias e suturas no enfermo. Às mulheres grávidas dispensava pronto atendimento realizando trabalho de parteira, com isso inúmeras crianças nasceram sob seus cuidados. Com estas habilidades e de forma fraternasolidária prestava seus serviços ao povo do município de Serra Talhada que a considerava uma médica de fato. Por isso tinha para com Ana Maria um grande amor e respeito. Quando os RochaSilva transferiram residência para o norte do Paraná, Ana Maria continuou prestando estes serviços ao povo desta região.

No ano de 1960, Antônio Leandro Rocha (pai de Doralice) acompanhado por um de seus filhos, almejando oferecer uma vida com mais conforto à família resolveu sair do nordeste decidido a conhecer o norte do Estado do Paraná, haja vista que figurava na época como a região que mais produzia café no Brasil, produto consagrado como “ouro negro”, pois proporcionava significativas vantagens financeiras aos produtores de café. Este fato atraiu enormes contingentes populacionais dos mais variados Estados da Federação Brasileira ao norte paranaense, destacando os nordestinos que procuravam adquirir terras com a finalidade de plantar e produzir café, ou mesmo para trabalhar de agregados, meeiros e/ou de porcentagem aos proprietários dos cafezais.

Após conhecer o norte do Paraná, Antônio L. Rocha retorna à Pernambuco e, no ano de 1962 desloca com a família em definitivo ao Norte do Paraná, mais precisamente no município de Paranavaí. Entre os anos de 1962 a 1965, Antônio L. Rocha e família, trabalharam na Fazenda Portela produzindo café sob o regime de porcentagem. Residindo na referida fazenda, Doralice muito jovem conheceu um rapaz (trabalhava na mesma fazenda) que seria seu esposo: João Francisco da Silva (em memória) e depois de um tempo de namoro, uniram-se em matrimônio no dia 19 de janeiro de 1963. Disse ela que seu esposo era natural do Estado da Bahia, daí o apelido de João Baiano ou simplesmente “Baiano”, de origem africana e indígena.

Deste casamento foram agraciados com quatro filhos, sendo eles: Diomira da Silva (única que nasceu em Paranavaí, os demais na Linha Coroados – Santa Helena), Joaninha da Silva, Antônio Francisco da Silva e Valdeci da Silva. Todos eles estudaram nas Escolas do Coroados/Codal, São Clemente e São José das Palmeiras (Ensino Fundamental e Médio). Vale destacar que Antônio Francisco da Silva, formou em Direito pela UNIPAR - Universidade de Toledo e Valdeci da Silva em História Uniamérica - Universidade de Foz do Iguaçu, mas nenhum dos graduados exerce as profissões nas quais se formaram. Três filhos exercem as profissões de agricultores e do comércio no município de Santa Helena e uma filha reside em Serranópolis do Iguaçu e trabalha como costureira autônoma.

Doralice continuou sua narrativa histórica, ao dizer que paralelamente ao desenvolvimento dos cafezais na região norte do Paraná, (década/60) ouviam-se muitos comentários no município de Paranavaí, que no oeste do mesmo Estado estava ocorrendo uma rápida e efetiva ocupação daquelas terras por catarinenses e gaúchos. A propaganda e a negociação das terras do oeste do Paraná estavam sob a responsabilidade dos corretores de imóveis. Há de acrescentar que outras pessoas que vinham conhecer o oeste paranaense, ao retornar ao norte do Paraná, descreviam sobre que viam, reforçando as falas do corretor, onde destacavam o clima, solo, vegetação, abundância das águas, aliada ao baixo preço das terras. Fatores preponderante ao desenvolvimento das atividades agrícolas ressaltou Doralice.

Diante deste contexto, no ano de 1965, Antônio Leandro Rocha (pai de Doralice) e o esposo dela, João Francisco Silva resolvem conhecer a região oeste do Paraná. Influenciados pelo corretor de imóveis Ifraim Machado, do município de Paranavaí, um dos responsáveis pelas negociações das terras na Linha Coroados. (Atualmente esta região integra o distrito de São ClementeSH). Ao chegar na localidade, Antônio Rocha e João Francisco (sogro e genro) ficaram entusiasmado com a exuberância das matas. Esta constatação in loco (visual) serviu para confirmar o que falavam as pessoas que já conheciam anteriormente a região. Imediatamente adquiriram cada um 10 alqueires de terras, medida paulista, (um alqueire paulista corresponde a 24.200 metros quadrados - Lote 29 e 30) da área controlada pelo corretor Ifraim Machado. Segundo Doralice, Ifraim Machado continua residindo na cidade de Paranavaí, obviamente com idade avançada.

A família Rocha e Silva deixa o norte do Paraná no ano de 1966, tendo como meio de transporte um caminhão Chevrolet. Viajar naqueles idos tempos era uma verdadeira aventura, estradas esburacadas ocasionadas pelas intermitentes chuvas que aconteciam quase o ano inteiro, sem asfaltos e pontes precárias. Após 3 dias de viagem – Paranavaí/Santa Helena - chegam no incipiente vilarejo de São Clemente no dia 12 de novembro do ano de 1966.

De São Clemente até a Linha Coroados, (aproximadamente 6 km de distância) tiveram que ir abrindo a estrada com enxada, foice, machado e traçador em meio à floresta, pois, somente havia até então uma picada naquele vasto sertão. Neste pequeno trecho de “picada/estrada” tiveram que retirar por diversas vezes o Caminhão dos atoleiros (lamaçais) que havia no trajeto.

Assim que se instalaram na propriedade rural da Linha Coroados, estavam à frente das mais diversas dificuldades. Restava enfrentar as adversidades e vencê-las. A esta altura Doralice era mãe de uma filha, Diomira da Silva. A menina contava com três anos de idade.  O primeiro passo foi erguer a casa. Toda a madeira para levantar a residência foi preparada pelos familiares de Doralice. Inclusive cobriram a moradia de tabuinhas, maneira mais prática para época, haja vista que não havia empresa que produzisse/vendesse telhas de barro na região de Coroados/Codal. Na sequência iniciaram a derrubada das matas que havia nas duas propriedades negociadas.

O pai de Doralice e seu esposo tinham conhecimento da inexistência de comércio de secos e molhados em São Clemente, por isso ao se transferirem do norte paranaense, trouxeram na mudança arroz, feijão, café, açúcar, banha e carne de porco suficiente para alimentar todos da família até que conseguissem preparar as terras e assim produzir alimentos até a próxima safra.

Foi exatamente o que fizeram: A medida que derrubavam a floresta, preparavam as terras e plantavam milho, feijão, arroz, entre outros produtos agrícolas e capim para criação de animais. Sem esquecer, ao deixar o norte do Paraná, muniram-se também de sementes de laranja, tangerina, poncã, abacate, abacaxi, limão, na intenção de formar um pomar.

Paralelamente ao plantio de lavouras deram início à formação de um pomar com as sementes oriundas do norte paranaense e enriqueceram-no com outras variedades adquiridas em São Clemente nos anos subsequentes. Com isso num curto espaço de tempo conseguiram obter um lindo e produtivo pomar ao redor da residência. Na época da produção de frutas, Doralice aproveitava para vender e/ou trocar com o povo de São Clemente por produtos/mercadorias que não conseguiam produzir na propriedade, como exemplo; farinha de trigo, banha e outros itens. Doralice relata que enchia uma bacia com poncã, banana, caqui, laranja, tangerina e um caldeirão com diversas hortaliças extraídas da horta que cultivava ao redor da casa. Levava a bacia na cabeça e o caldeirão com as forças dos braços porque não havia itinerário de ônibus entre Coroados/São Clemente logo que se instalaram naquela região. Disse Doralice que ia para São Clemente ‘pesada’ e voltava ‘pesada’ para casa. Estas viagens e negociações fizeram parte na vida de Doralice por vários anos.

Porém, Doralice não restringiu sua vida aos afazeres domésticos e às lavouras. Há de salientar que durante os parcos momentos que estava fora dos trabalhos rurais, costurava roupas. As confecções obtidas na costura que realizava, partes ficava para tender as necessidades da própria família e o excedente negociava com o pessoal de São Clemente. Avalia Doralice que o sacrifício valia apena, pois os ganhos que alcançava nas vendas das confecções, frutas e verduras auxiliava na manutenção orçamentária da família, com isso não haveria necessidade de João Francisco e Doralice prestar serviços como diaristas a outros produtores rurais.

Como nem tudo que é bom permanece para sempre, vejamos: A partir de meados da década de 1970, com a intensa mecanização das terras de todo oeste paranaense, aliado ao uso indiscriminado e constante de inseticidas nas lavouras, os pés de frutas foram afetados pelos agrotóxicos e aos poucos secaram, com isso deixaram de existir, sintetiza com tristeza Doralice. No início da colonização, explica Doralice, todo o trabalho era realizado manualmente e os produtos que produziam na agricultura ficava restrito ao consumo dos próprios familiares, pois, não tinha para quem vender todo o excedente de produção.

Doralice comentou um fato pitoresco pelo qual foram os mentores. Assim que conseguiram preparar uma área de terra para o plantio de lavouras, foram em busca de ramas de mandioca. João Francisco entrou em contato com um vizinho de propriedade de nome Beno, único agricultor da vizinhança na época que dispunha de ramas de mandioca, na intenção de negociar com o mesmo. Este disse que rama de mandioca não doava e nem vendia. Somente negociava os pés de mandioca com a seguinte proposta, dois pés da planta por um dia de trabalho e sem as ramas. João Francisco ao indagar Beno, o porquê disto, respondeu-lhe, só assim terei pessoas para trabalhar em minhas lavouras quando precisar. João Francisco voltou para casa chateado e em conversa com os familiares sobre o fato, interpretaram o caso como uma falta de solidariedade e insensatez do produtor rural. Decidiram furtar ramas de mandioca da propriedade do agricultor Beno e o fizeram. Com isso conseguiram plantar e produzir mandiocas logo no primeiro ano residindo na Linha Coroados.

Doralice mencionou um acontecimento familiar que os preocupou bastante. Foi quando Diomira da Silva, com apenas 6 anos de idade (1969) embrenhou nas matas da propriedade sem que ninguém da família tivesse percebido seu afastamento da casa. Quando sentiram a ausência da menina, o desespero tomou conta, até porque, sabiam dos perigos que corria a criança se não a encontrassem o mais rápido possível naquela imensidão florestal. Os familiares imediatamente saíram à procura da desaparecida. Angústia e apreensão os seguiam floresta adentro. Por sorte da menina e dos familiares, os cães de caça que possuíam a acompanharam em suas andanças pelas matas servindo de guia e proteção. Após horas de intensa “caçada” em meio à imensa vegetação, ouviram os cães emitirem latidos, o que os auxiliou imensamente a encontrar Diomira e os próprios animais, sãos e salvos. O susto foi imenso, mas no final tudo acabou bem, recorda Doralice.

Prosseguindo com outros fatos históricos, Doralice contou que por volta do ano de 1967 um senhor de apelido “Lula” instalou o primeiro comércio de secos e molhados em São Clemente. Com este comerciante, os familiares de Doralice trocavam os produtos agrícolas que produziam por mercadorias e produtos agrícolas que não conseguiam obter em suas propriedades, como exemplo: trigo, açúcar, querosene, roupas, utensílios domésticos, entre outros. À medida que o tempo passava, Doralice e familiares paulatinamente avançavam sobre as matas que restava em suas terras.

Dia após dia a região do Coroados/Codal “assistiu” a chegada de inúmeras famílias dos diversos lugares do próprio Estado do Paraná e demais Estados Brasileiros, com a finalidade de adquirirem propriedades rurais. Tal situação atraiu novos comerciantes que passaram a instalar seus comércios em São Clemente e São José das Palmeiras. Assim entre os anos de 1970 a 1975 Doralice e seus familiares, aproveitando suas terras novas e férteis, passaram a produzir hortelã. Produto que alcançava um vantajoso preço no mercado brasileiro. Vendiam a produção de hortelã aos comerciantes de São Clemente e São José das Palmeiras.

Doralice destacou também que resolveram plantar café na propriedade, apostando na experiência que adquiriram ao trabalhar com esta lavoura quando residiram no norte do Paraná. E que nas décadas de 1970/1980 fizeram boas colheitas de café em seus cafezais. Vendiam praticamente toda produção de café aos comerciantes de São José das Palmeiras. Salientou Doralice que este município foi um dos maiores produtores de café do oeste paranaense entre as décadas de 1970 à 1980. Favorecidos pela geografia (acidentada) e pela população que conhecia os procedimentos necessários, ou seja, do plantio à colheita do café.

Faz-se necessário destacar outros enfrentamentos que a família de Doralice teve de suportar e superar logo que instalaram na Linda Coroados. Tiveram que resistir bravamente às investidas dos Jagunços da Fazenda Jamaica (a fazenda fazia divisa com as terras dos Rocha/Silva). Os jagunços procuravam intimidá-los através das mais variadas formas de pressão com o único objetivo: que deixassem suas terras e certamente estas seriam incorporadas à Fazenda Jamaica. Exemplos das ameaças que sofreram: Os jagunços retiravam os marcos que serviam de limites das propriedades dos familiares de Doralice como estratégia de provocação, além disso, passavam próximo a residência montados em seus cavalos e com os armamentos à mostra. Convictos do que queriam no Oeste do Paraná, disse Doralice que, com firmeza de espírito, coragem e de posse de documentos comprovando a legalidade da compra das terras, conseguiram superar este embate terrível. Outro momento de preocupação ainda sobre questão fundiária que tiveram de enfrentar, ocorreu quando um vizinho de terras de nome Chiquinho queria à força que os familiares de Doralice negociassem com o mesmo a propriedade. Em todas as investidas, foram fortes o suficiente e não se renderam às ameaças, intimidações daquela pessoa.

Passados uns anos, o próprio Chiquinho foi assassinado por outro agricultor vizinho seu, quando este negociou uma área de terra e deixou de cumprir com o pagamento da propriedade adquirida. Afirma Doralice que ela e seus familiares presenciaram entre os anos de 1968/1969, outros momentos angustiantes e de tristeza a respeito de disputas de terras entre grileiros e posseiros no Braço do Norte/Serrinha, próximo a Coroados/Codal. Em meio a esta região tinha três outras fazendas que faziam limites com a Fazenda Jamaica, sendo elas, Vergueiro, Madalozzo e Mesquita. Das terras que compunham as referidas fazendas boa parte das áreas eram de grilos.

*Grilagem - A grilagem de terras é um ato ilegal, fundado na tentativa de apossamento de terras alheias ou públicas – devolutas -  mediante uso de falsas escrituras de propriedade. O termo se deve ao uso de grilos (insetos) para dar a aparência de envelhecimento aos documentos por conta dos dejetos dos insetos sobre o papel.

*Terras devolutas são terras públicas sem destinação pelo Poder Público e que em nenhum momento integraram o patrimônio de um particular, ainda que estejam irregularmente sob sua posse. O termo "devoluta" relaciona-se ao conceito de terra devolvida ou a ser devolvida ao Estado.

Estas vastas áreas de terras estavam sem ocupação humana, mas sob o domínio de umas poucas pessoas que tinham o propósito de especulação imobiliária. Entretanto a partir da década de 1960 a região oeste do Estado conta com um fluxo migratório expressivo de pessoas, porém, parcela dessa gente chegava na região sem condições financeiras para comprar propriedade rural, mas desejosos de tornarem agricultores. A alternativa que buscaram foi apossar-se de áreas rurais e assim continuariam trabalhando na agricultura, pois, a maioria destes tinham as origens nas lidas do campo. Os posseiros sabiam através de informações que a maioria das terras das citadas fazendas constituíam de grilos, portanto, passíveis de serem ocupadas, uma vez que os supostos fazendeiros não eram de direito os legítimos proprietários. Por outro lado, os “donos” das propriedades no intuito de assegurarem suas “posses” contratavam pistoleiros, conhecidos como jagunços para defender as terras frente aos posseiros.

Doralice relembra que esteve em sua casa o jagunço de nome “Amadinho” (homem de baixa estatura e deficiente de um braço, porém de uma índole feroz), descreveu-o. Esta pessoa chegou almoçar na residência dos Silva ao ser convidado. Amadinho confessou a Doralice e familiares durante o almoço que ele e mais um grupo de jagunços foram contratados pelos fazendeiros com a finalidade de retirar a qualquer custo os posseiros que estivessem ocupando as terras das fazendas mencionadas. Doralice tentou persuadir Amadinho na intenção de que desistisse da ideia de exterminar os posseiros por serem pais de família e que estavam ocupando as terras porque desejavam plantar e produzir alimentos e assim criariam os filhos decentemente. Recorda Doralice que este encontro com Amadinho aconteceu no ano de 1968 na Semana Santa. No que o jagunço deixou a residência, Doralice ajoelhou defronte de seu oráculo e pediu fervorosamente em oração a proteção divina no intuito que intercedesse junto aos incautos homens que não deixasse acontecer algum mal aos posseiros.

No dia seguinte Doralice ficou sabendo que o conflito que estava para acontecer não ocorreu entre grileiros e posseiros de terras. Houve um desentendimento entre dois grupos de jagunços rivais que dominavam aquela região, de um lado sob o comando de Amadinho e do outro sob o controle do jagunço Martins.

*Jagunço - indivíduo que serve de guarda-costas a uma personalidade influente; capanga.

Entraram em luta armada e deste embate diversos jagunços morreram. Doralice acredita que naquele episódio os Anjos do Céu fez-se presente a favor dos posseiros o que salvou-os da morte.

*Posseiro - aquele que invade e ocupa a coisa, mesmo não tendo direito a ela. Que ou quem está ilegitimamente de posse de uma terra, como se dono dela fosse.

No entanto ocorreram vários confrontos entre posseiros e jagunços/grileiros de terras. Ao término dos combates, infelizmente a maioria dos mortos se contabilizava do lado dos posseiros. Lembra Doralice que 1968/69 foram os anos que ocorreram as batalhas mais sangrentas pela posse e domínio das terras (posseiros x grileiros) na região do Coroados e Braço do Norte/Serrinha. Nos duelos que travaram naqueles anos, acredita Doralice que aproximadamente uns 30 posseiros perderam suas vidas. Somente durante um tiroteio que aconteceu entre posseiros e grileiros foram informados que morreram dezenove “combatentes”. Foi um período triste e preocupante a todas as pessoas que viviam na região em razão desses acontecimentos, felizmente tudo passou, fala aliviada Doralice.

Quanto aos instrumentos de trabalho e meio de transporte dos agricultores, usavam arado, cavalo, burro, mula, bois de canga, carroça, charretes, carroções. Desejando manter viva a memória das lidas do campo nos tempos de outrora, Doralice, com apoio dos parentes, organizou um Museu com diversas peças que utilizaram na agricultura e homenageou com o nome do esposo João Francisco da Silva. O Museu fica no interior do centro de eventos que existe na propriedade dos Silva.

Continua a apontar Doralice que outro obstáculo enfrentado ocorria quando alguém necessitava de um atendimento médico de emergência. Normalmente recorria-se a João Azeredo para transportar o enfermo, pois residia no vilarejo de São Clemente e era a única pessoa que dispunha de um JEEP naquela localidade. Inclusive logo que chegaram à Linha Coroados/Codal, Antônio L. Rocha (pai de Doralice) teve que ser transportado à Umuarama (noroeste do Paraná) para tratar de uma complicada enfermidade que lhe acometeu. E quem fez a viagem, foi justamente João Azeredo com seu Jeep.

Em se tratando de lazer, disse Doralice que foram poucas vezes a participação dos familiares nos momentos de diversão com a comunidade em razão de possíveis perigos de confusão nos encontros sociais daquela época. Esta preocupação levou-os a buscar alternativas festivas que fosse possível ser realizada na própria propriedade. Entre as diversas festas que realizaram ao longo dos 50 anos que residem no município, uma iniciou no inverno de 1968 e permanece ininterruptamente até os dias de hoje: Festa Junina. O evento continua sendo preparado totalmente pelos familiares de Doralice, com todas as peculiaridades deste festejo. São convidados de Doralice, os seus familiares, vizinhos de propriedade, amigos de São Clemente e da cidade de Santa Helena. Se faz necessário dizer que existe um local próprio (salão) construído de alvenaria pelos Silva com a finalidade de atender os convidados confortavelmente durante o desenrolar das atividades sociais por eles promovidos. Os participantes das festividades juninas ficam isento de qualquer custo financeiro. A única obrigação pelo qual solicita Doralice aos convidados, é estarem munidos de muita energia para desfrutarem das diversas atividades propostas pelos organizadores.

Doralice comentou também que, no ano de 1969, na festa da comunidade Coroados, em comemoração ao Dia das Mães, ela e sua família se encontravam no festejo e neste dia envolveram-se numa triste e dolorosa confusão, porque foram defender um jovem negro de nome Júlio, morador de Coroados que também estava na festa e estava sendo humilhado por algumas pessoas. Humilhações de caráter preconceituoso e racista, provenientes de pessoas de origem gaúcha e catarinense, diziam sem nenhum receio e constrangimento que aquele “negrinho” deveria ser jogado ao fogo da churrasqueira para ser queimado, com isso desapareceria daquela sociedade e por diversas vezes repetiam a frase. Doralice e familiares sentiram na obrigação de defendê-lo, pelo aspecto humano e por serem de origem negra e nordestina, e acabaram sendo atacados. Ofensas absurdas e degradantes a honra de qualquer ser humano, foram disparadas. Doralice atribui até hoje àquele episódio, uma demonstração cínica e arrogante de pessoas desprovidas de respeito ao próximo. Por fim, aponta Doralice que durante outros eventos sociais na comunidade no qual estiveram presentes sofreram constrangimentos de cunho racista e preconceituoso. Só pelos olhares percebiam nitidamente o desprezo e desconfiança das pessoas para com eles. Parece que queriam dizer, abandonem esta comunidade. Este lugar não são para vocês. Isto os entristecia e incomodava imensamente. Doralice não tem dúvida e é enfática, “Fomos alvos destes acontecimentos pelo fato de sermos negros e nordestinos”. Estas questões constrangedoras fizeram com que Doralice e familiares deixassem de continuar frequentando os meios sociais, bem como de atos religiosos da Igreja Católica na Linha Coroados.

No entanto desejosos de manter vínculos comunitários passaram a integrar-se à Linha Codal e na sequência, São José das Palmeiras. No município de São José das Palmeiras, Doralice e sua gente sentiam-se à vontade com o pessoal que compõem aquela sociedade, haja vista que a população que ali residiam e ainda residem são na maioria de afrodescendentes, além disso, significativa parcela daquele povo tem origem nordestina. Por esta razão histórica/cultural, Doralice entende que facilitou a compreensão e o respeito entre os Rocha/Silva e a sociedade de São José das Palmeiras, justifica. No entanto, Doralice fez a seguinte ressalva: ao longo dos cinquenta anos que residem no município de Santa Helena, foram e continuam sendo amigos de famílias tradicionais e de cor branca, como exemplo: Bortolini, Bueno, Paludo, Alegretti, entre outras, bem como dos ex-prefeitos: Antonio de Oliveira (Toninho) e Francisco Muniz (em memória). Doralice fez questão de destacar o carinho, o respeito da Sra. Maria Alegretti (branca-pioneira) para com os santa-helenenses. Disse Doralice que independentemente das condições sociais, cor, religião... Maria Alegretti, produzia remédios caseiros e repassava gratuitamente às famílias santa-helenenses que necessitasse de seus “produtos” para tratar suas enfermidades. Inclusive Doralice recorreu diversas vezes aos remédios fornecidos pela Sra. Maria Alegretti quando sua mãe Ana Maria não dispunha da farmácia caseira que ela mesma preparava. Maria Alegretti auxiliou nos tratamentos das doenças de seus familiares, em especial à sua primeira filha Diomira da Silva. Acrescentou Doralice, isso demonstra que preconceito e racismo são frutos da cabeça de pessoas ignorantes, no entanto, são capazes de promover uma devastadora tristeza, aliada a uma infindável mágoa e ressentimento na gente que passa tal desatino. Todos os seres humanos deveriam ter consciência que a cor da pele, é simplesmente um verniz e que somos filhos de um Deus único, portanto, todos merecem ser respeitados, finalizou Doralice.

Mensagem de Doralice da Silva

Tenho uma imensa gratidão e respeito pelo povo do distrito de São Clemente. Sempre fomos bem recebidos e acolhidos pelos moradores daquela localidade, à qual também pertencemos. Além dos laços de amizade que nos aproximam, por outro lado, no campo econômico realizamos bons negócios com as pessoas e comerciantes de outrora, bem como na atualidade.

Mensagem de João Rosa Correia

Agradeço à Sra. Doralice Leandro da Silva em conceder esta entrevista. Mais uma mulher que com determinação e garra ajudou desbravar o sertão de Santa Helena. Registrar os fatos históricos de um povo é guardar a memória de luta dos antepassados que certamente servirá para encorajar a geração atual a enfrentar os desafios dos tempos presentes nos quais estão submetidos.

Prof. João Rosa Correia




























































































João Rosa Correia