Colunistas | Colunas

Esta coluna é o resultado de entrevistas e fotos coletadas pelo professor de história, João Rosa Correia. O interesse tanto na produção quanto da publicação é para que se mantenha viva a história da colonização do município de Santa Helena, contada pelos próprios pioneiros.

30.07.2014

ENTREVISTA COM A SRA HIDVIRGES KOZERSKI, RESIDENTE EM SANTA HELENA DESDE 1958

Na segunda-feira, 21 de julho de 2014, o professor de História João Rosa Correia, do CEEBJA e Escola Estadual Graciliano Ramos – Ensino Fundamental Séries Finais de Santa Helena, entrevistou a Sra Hidvirges Kozerski, em sua residência, localizada à Rua João Marcelino Madalozzo.

A pioneira iniciou relatando que é de origem italiana e polonesa. Nasceu no Estado do Rio Grande do Sul no ano de 1928. Hidvirges estudou até a 4ª Série do antigo primário. Casou-se com Argemiro Antônio Kozerski em Erechim, desta união nasceram sete filhos, quatro homens e três mulheres. De Erechim (RS) a família deslocou-se para Pato Branco, no sudoeste do Estado Paranaense, onde Argemiro trabalhava de empregado no ramo de marcenaria. Logo depois Argemiro conseguiu abrir seu próprio negócio no mesmo ramo que trabalhava na referida cidade. No mês de março do ano de 1958 Argemiro Kozerski, influenciado pelo empresário João Madalozzo veio conhecer Santa Helena, ao chegar nestas terras agradou-se tanto deste lugar, retornou imediatamente a Pato Branco, vendeu os bens materiais que adquiriu por lá e rumou com a esposa e três filhos à Santa Helena. Ao fixar residência em Santa Helena a família Kozerski adquiriu quatro terrenos urbanos da Imobiliária Agrícola Madalozzo na área central da cidade. Hidvirges salientou que sua família foi a terceira a se instalar na cidade que ora se iniciava.

Era praticamente tudo mato. Para alimentar os filhos, a família adquiriu uma vaca de leite. Por não disporem de pasto, o animal ficava ao lado da casa e Hidvirges providenciava a alimentação do animal, era um sacrifício e tanto, conta ela. Outra dificuldade encontrada era ao precisar lavar as roupas, calçados e utensílios domésticos. Fazia-se necessário deslocar-se até o riacho que corta o atual Bairro Vila Rica de Santa Helena por meio de uma estreita abertura (picada) na mata. Água para beber e usar na alimentação, era extraída de um poço escavado ao redor da residência através de balde atrelado a uma manivela. Para instalar e colocar em funcionamento a marcenaria, tiveram que derrubar as árvores que havia no local. No início quem trabalhava na marcenaria era o próprio Argemiro porque não havia pessoas para trabalhar como funcionário da empresa. O filho mais velho Luís Carlos Kozerski aos cinco anos de idade auxiliava o pai nos preparos das madeiras que seriam beneficiadas. A própria Hidvirges após cuidar dos filhos e dos afazeres domésticos, colaborava nos trabalhos da marcenaria.

Os maiores compradores dos produtos da marcenaria, como aberturas, móveis, madeiras quadradas, eram clientes de Foz do Iguaçu. Na época a empresa Kozerski não dispunha de meios de transporte suficiente (veículos) e em boas condições que permitissem transportar todas as encomendas de mercadorias produzidas na marcenaria. Com isso, as vezes as próprias pessoas que compravam os produtos da empresa se encarregavam de transportar as mercadorias adquiridas. Em uma das vendas de mercadorias a clientes de Foz do Iguaçu, Argemiro resolveu ir até aquela cidade de “carona”. Ao tentar retornar a Santa Helena de ônibus veio a surpresa, não haveria transporte de passageiros via terrestre para aquele dia, nem no dia seguinte, o que lhes obrigou realizar o trajeto a pé.

Continuando os relatos, a Srª. Hidvirges comentou sobre outras dificuldades enfrentadas no início da formação do município, como exemplo: além da falta de estrada em condições de tráfego, não existia comércio, farmácia, hospital, escola, local de lazer, (Centro Comunitário, salão de bailes), Igreja. Quando alguém ficava doente, era necessário deslocar até Foz do Iguaçu, pois Marechal Cândido Rondon e Toledo encontravam-se nas mesmas dificuldades de Santa Helena.

Relembrou Hidvirges de um momento feliz e ao mesmo tempo preocupante de sua vida. No final da gestação da quarta filha, sequer havia parteira em Santa Helena (parteiras eram mulheres voluntárias, que aliadas à coragem, auxiliavam as gestantes a ter seus filhos em casa). Tal situação obrigou-lhes a retornar para Erechim na casa de familiares para que pudesse dar a luz com mais segurança à criança que recebeu o nome de Gladis Kozerski (1959). Acompanharam-na nesta viagem os 03 filhos pequenos, foi um desafio enorme, mencionou Hidvirges.

Retornou de Erechim via Foz do Iguaçu por intermédio de um pequeno avião. De Foz do Iguaçu a Santa Helena vieram de ônibus, uma verdadeira aventura na época, pois, a estrada era quase intransponível e, para piorar a situação não havia regularidade no transporte. Depois de muito sacrifício conseguiram embarcar num ônibus, logo depois da partida de Foz do Iguaçu o ônibus quebrou e tiveram que esperar o mecânico de Foz para consertar o veículo. Neste momento perguntei a Srª Hidvirges porque não vieram de Navio via Rio Paraná, no que respondeu enfaticamente a entrevistada, “nem morta, sempre tive muito medo de andar de navio. Nunca viajei com este meio de transporte e não pretendo nunca viajar”. Hidvirges relata também o seguinte fato: a marcenaria fabricava caixão de defunto sob encomenda. Quando do falecimento da Sra Tomas (1ª pessoa falecida em Santa Helena enterrada no cemitério municipal) seus familiares solicitoram que Argemiro fizesse o caixão. Assim foi feito, no entanto Argemiro foi ao velório à noite, e deixou o caixão em sua residência. Hidvirges ficou em casa com as crianças e ao lembrar-se da falecida e ver o caixão à sua frente, sentia muito medo, pois tudo era mato, escuro, recorda a anciã.

Hidvirges e Argemiro foram os primeiros catequistas de crianças católicas em Santa Helena. Além de colaborarem na questão religiosa, Hidvirges participava de forma voluntária nas festas da Igreja Católica, fazendo bolos, cucas, pães... Acrescentou dizendo que as massas para fazer os alimentos eram feitas manualmente, nem sonhavam com as facilidades tecnológicas dos dias de hoje, “eu e as outras companheiras fazíamos estes serviços como forma de colaborar com a Igreja e a comunidade”.

Com o passar do tempo Santa Helena foi expandindo e melhoraram os negócios da empresa. Isto possibilitou que a família adquirisse três chácaras (próximo a Rua Ângelo Cattani). Em 1982 partes destas propriedades foram indenizadas para a formação Lago de Itaipu. Restou uma pequena área de terra, da qual ainda são proprietários. Adquiriram outra chácara próxima a Auto Escola Independência, na Rua Pará que ainda continua a lhes pertencer.

Na década de 1970, Argemiro adquiriu 105 alqueires de terras no Estado de Rondônia no município de Ariquemes. A Sra Hidvirges às vezes acompanhava o marido para aquele Estado no intuito de ajudar abrir a propriedade. Na medida em que as terras iam sendo abertas, plantavam café, seringueira, e outros produtos agrícolas, administrada por Argemiro e Luís Carlos Kozerski. Por motivos econômicos, intemperes e distâncias dos centros consumidores os negócios fracassaram, o que obrigou Argemiro a vender a propriedade e retornar para Santa Helena. No período que partes da família estavam em Rondônia, a marcenaria continuou funcionando normalmente sob o comando dos demais filhos e noras de Argemiro e Hidvirges Kozerski. Inclusive a marcenaria Kozerski foi a primeira no ramo de fabricação de móveis de Santa Helena e continua em plena atividade após 56 anos de trabalho ininterrupto.

No ano de 1994 a empresa transferiu-se para o Parque Industrial nº 02 próximo ao Cristo Esplendor/Porto Internacional de Santa Helena. Atualmente partes das estruturas da antiga marcenaria instalada no centro da cidade servem de escritório da empresa, “escola” de ensino/aprendizagem de trabalhos artesanais sob a coordenação da filha e nora de Hidvirges, bem como para depósitos de aberturas e madeiras brutas. Hidvirges recordou dos trabalhos de Argemiro para com a comunidade santa-helenense ao dizer que o esposo (falecido em outubro de 2002) tinha um espírito colaborativo, participou de diretoria de Escola, Igreja, Clubes Esportivo. Inclusive foi atleta e um dos primeiros fundadores do Clube Incas e Clube União de Santa Helena. Articulou na fundação da escola CNEC – Campanha Nacional de Escolas da Comunidade, mais tarde transformada em Escola Estadual. A Escola CNEC ficava onde hoje concentra o Colégio Estadual Castelo Branco- Ensino Médio de Santa Helena. Como não havia energia elétrica para que a Escola funcionasse no período noturno, Argemiro forneceu gratuitamente energia por muito tempo do gerador da marcenaria por meio de um fio elétrico da empresa até o educandário. Todas as noites após o término das aulas, Hidvirges ficava na responsabilidade de desligar o disjuntor que fornecia energia a aquela instituição de ensino.

Argemiro também foi vereador no período de 1968 a 1972. Perguntei a Sra. Hidvirges se ela não quis aventurar pelo mundo da política partidária, disse que não, pois acha um terreno muito difícil de ser percorrido, haja vista que infelizmente quem ocupa cargos públicos eletivos geralmente fala muito, pouco fazem e nem sempre prezam pela verdade, o que acaba desiludindo os eleitores que gostam da retidão. Acrescentou dizendo, o que me deixa muita entristecida com o rumo da política. Hidvirges deixou o seguinte recado, em especial aos estudantes, “que continue estudando, cresçam sem mentir, sejam honestos e trabalhem para o desenvolvimento da cidade”.

Agradeço a Sra Hidvirges Kozerski, uma das primeiras testemunhas oculares da História de Santa Helena pela entrevista. Este encontro possibilita compreender melhor a trajetória histórica da Sede do Município desde seu início até aos dias atuais. Por outro lado, este momento histórico/pedagógico também tem com a finalidade valorizar e possibilitar maior visualização às pessoas que ao longo de suas vidas por meio de suas atividades profissionais, espírito público e colaborativo, contribuiu imensamente para o desenvolvimento material de Santa Helena e intelectual de seus munícipes.

Professor: João R. Correia - História


Sra Hidvirges Kozerski


Hidvirges e Prof. João R. Correia


Início da Marcenaria Kozerski 1957 - Rua João Marcelino Madalozzo - conhecida por J.M. Madalozzo


Instalações da marcenaria - Rua JM. Madalozzo




Vista áerea - marcenaria. A esquerda Av. Paraná, década de 1970 despovoada


Vista aérea da Marcenaria. A esquerda Av. Paraná povoada. Década de 1990






Quadro de 1987 - 30 Anos da empresa - SH


Quadro de 1996


Trabalhos artesanais








Marcenaria instalada no Parque Industrial nº 2. Próximo ao Porto Internacional de Santa Helena. 1994