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Esta coluna é o resultado de entrevistas e fotos coletadas pelo professor de história, João Rosa Correia. O interesse tanto na produção quanto da publicação é para que se mantenha viva a história da colonização do município de Santa Helena, contada pelos próprios pioneiros.

29.11.2019

Professor João Rosa entrevista família Sehn, do distrito de Vila Celeste

Família Sehn, de Vila Celeste, Distrito de Santa Helena PR, concede entrevista ao Professor de História, João Rosa Correia, da Escola Estadual Graciliano Ramos – Ensino Fundamental.

Na segunda-feira, 10 de dezembro de 2018, entrevistei Eno Sehn/Valesca Sehn na residência do casal à Rua Getúlio Vargas cruzamento com a Rua Rui Barbosa nº 140, centro do Distrito de Vila Celeste, Santa Helena, Paraná.

Eno contou que nasceu em Santa Cruz do Sul/RS no dia 30 de dezembro de 1944. Integrante de uma família de seis irmãos (04 F e 02 M). Filho de Júlio e Regina Merina Sehn, ambos de origem alemã. Comentou que seus antepassados saíram da região de Hüntzrik, na Alemanha, no primeiro quarto do século XX em direção ao Brasil por duas razões:  ) ocorrera uma explosão demógrafica naquele país por conta de atendimentos do poder público no setor da saúde ao povo alemão, concomitantemente a isto, ocorreu intensa industrialização e intenso exôdo rural. Expulsos do campo, as pessoas recorriam aos núcleos urbanos à procura de trabalho o que ocasionou expressiva concentração populacional nas cidades; ) fugir dos confrontos ideológicos que despontava na Europa entre Capitalismo e Socialismo pós Primeira Guerra Mundial.

Valesca Sehn nasceu em 22 de agosto de 1949 no município de Venâncio Aires R/S. Filha de Adolfo Guilherme Fagundes de Brito (descendente de portugueses) e Maria Michels de Brito (descendência alemã). Família composta de 13 irmãos, 11 ainda vivem, sendo 6 M e 5 F.

Ambas as famílias viviam exclusivamente da agricultura no Rio Grande do Sul. No Estado do Sul do país, os pais de Eno cultivavam principalmente milho, arroz, feijão e fumo numa propriedade de 18 hectares de terras que lhes pertenciam. Ao colherem o fumo, transportavam este produto em carroções de bois e/ou em carroça puxada por cavalo, até as estufas que ficava na própria propriedade. No sistema de secagem em estufas, o fumo secava com mais rapidez em relação ao convencional. Esta agilização tinha um elevado “preço” ambiental, porque os fumicultores recorriam constantemente à queima de muita lenha para abastecer as fornalhas que iriam aquecer as estufas. Segundo Eno Sehn, os agricultores agilizavam a secagem do fumo porque o produtor que conseguisse antecipar a entrega do fumo às empresas compradoras conseguiria receber melhor preço em relação àqueles que entregasse na época considerada normal da safra do citado produto. O que representava aos fumicultores excelente remuneração financeira, fortalecendo o orçamento familiar.

Além de produzirem cereais, criavam diversos animais domésticos, tais como: aves, porcos e bovinos. Ainda de acordo com Eno, desde criança ele auxiliava os pais nos trabalhos do campo, inclusive conduzindo carroção de bois nos diversos afazeres que necessitasse deste meio de transporte. Relatou também que iniciou o Ensino Fundamental (antigo primário 1º a 4º série) em Santa Cruz do Sul RS, com o Professor Fredolino Fritzen e concluiu este nível de ensino em Itapiranga SC, com o professor Eduardo Lunkes. Professores com formação em seminários católicos.

Eno considerava seus professores, pessoas inteligentes, dedicados e didáticos ao transmitir os preceitos das letras e da matemática aos estudantes. Além das letras e dos números ensinavam a eles notas musicais, cantar e  até  manusear violino e órgão (instrumento musical que na época tocava com o auxílio dos pés para sair o som desejado). No transcorrer das aulas, tocavam e cantavam principalmente músicas dos cancioneiros gaúchos. Por serem também fervorosos seguidores dos princípios católicos entoavam nas aulas com os educandos cânticos religiosos da fé católica. O que tornava as aulas animadas e divertidas, com isso a aprendizagem era algo descontraído e prazeroso. Atributos educativos que auxiliava os professores manter os educandos sob controle em sala de aula, acredita o entrevistado.

Ainda a respeito de seus professores, disse que eles participavam ativamente como regentes de corais nos seus respectivos municípios. Quanto à merenda escolar, a escola não fornecia aos estudantes, por conta disso os alunos levavam de casa lanches que por eles seriam consumidos nos dias que estivessem frequentando o ambiente educacional. Os alimentos prediletos que Eno levava para Escola era pão torrado e bolinhos que segundo ele degustava com muito gosto no horário do recreio. Com dez anos de idade (1954) a família de Eno Sehn deixou Santa Cruz do Sul e foram morar em Itapiranga SC. Neste município adquiriram 27 hectares de terras e continuaram exercendo a profissão de agricultores.

Ao completar 18 anos de idade Eno alistou-se e serviu o exército brasileiro entre 1962/1963 no Rio de Janeiro, no Batalhão da Polícia do Exército com o número de guerra 194. Por isso, diversas vezes teve que participar do policiamento extensivo de combate à criminalidade em várias cidades daquele Estado. Encerrado o período de reservista (soldado do exército), retornou para casa dos pais (Itapirianga SC) e continuou com a família trabalhando na agricultura.

Enquanto estava no exército, Júlio (pai de Eno) adquiriu 14 hectares de terras na comunidade de Cristo Rei, vizinha à de Beato Roque (Itapiranga), onde já viviam. Esta propriedade Júlio repassou ao Eno Sehn, com a seguinte ressalva, desde que ele posteriormente ressarcisse o valor pago na aquisição dessas terras. O ressarcimento monetário seria equivalente ao preço de quatro mil e quinhentos quilos (4500) de carne de porco vivo. Prontamente Eno Sehn aceitou a proposta de seu pai e passou a cultivar as terras.

Solteiro, trabalhando na agricultura, passou a acalentar o desejo de conquistar uma namorada e casar para conviver consigo. Conheceu Valesca e passaram a namorar. Depois de alguns de anos de namoro uniram-se em matrimônio.

Valesca, oriunda de Venâncio Aires, de onde seus pais migraram para Itapiranga em 1961, quando ela contava com 12 anos de idade. Iniciou os estudos em Venâncio Aires e completou a 4ª série (hoje corresponde ao 5ª ano) em Itapiranga na localidade Beato Roque.

Porque vieram para oeste do Paraná? Explicou Eno que na década de 1960, havia uma forte corrente migratória do Rio Grande do Sul para esta região e Santa Helena era um desses lugares de enorme atração de migrantes sulistas. Fato que fez despertar no futuro sogro de Eno o desejo de conhecer este “pedaço” do território paranaense. Viagem que o preocupava, porque o “sogro” demonstrava durante conversas com parentes e vizinhos, que tinha interesse em comprar terras no oeste paranaense e se conseguisse concretizar este desejo transferiria residência com a família para ocupar e colonizar as novas terras que adquirisse. Eno, com receio de perder a futura companheira se isto se concretizasse e Valesca viesse para o oeste do Paraná com seus familiares. Então Eno resolveu viajar na caravana que estava Adolfo, com uma certeza, de também comprar terras no município, porque estava decidido em ficar ao lado da pessoa que escolheu para ser sua esposa.

Ao chegar na região de Vila Celeste, ficaram impressionados com a exuberância das matas que existia na época e encantados com o relevo plano que encontraram. Ficaram vislumbrados com que viram, porque vieram do município de Itapiranga, constituído de muitos morros, o que dificultava plantar e colher cereais naquela topografia “acidentada”. Lembrando que naqueles idos tempos, não havia máquinas agrícolas que auxiliasse o trabalho do agricultor nas atividades agrícolas que desenvolviam, praticamente quase tudo que produzia no campo tinha que ser realizado com tração animal e/ou manualmente.

Após conhecer a região oeste paranaense, “sogro e genro” retornam a Itapiranga, venderam as terras que lá possuíam e compram terras em Santa Helena. Obs. Destacou Eno, que Osvino Hofmann foi o corretor que os incentivou (sogro/genro) a deslocar para Santa Helena, diga-se Linha Vera Cruz. Com uma Kombi, transportava os conterrâneos gaúchos e lhes mostravam as terras que estavam legalmente documentadas e à disposição para serem negociadas.

Eno adquiriu 24 hectares e Adolfo (sogro) adquiriu 20 alqueires na Linha Vera Cruz. Ao retornar a SC, Eno agiliza o casamento com Valesca, pois, ambos tinham a intenção de transferir residência para Santa Helena com a união matrimonial sacramentada, fato que ocorreu no dia 10 de maio de 1968 em Beato Roque,  Itapiranga. Obs. Eno/Valesca Sehn tiveram 3 filhos: Neides, Tayson e Neusa (inmemorian), todos eles nasceram no município de Santa Helena Paraná. Trinta dias após o casamento deixaram Itapiranga, com o também recém-casado cunhado de Eno, Hélio de Brito e esposa Iria de Brito. Após dois dias de viagem chegaram à Linha Vera Cruz no dia 13 de junho de 1968. Na viagem trouxeram diversos utensílios domésticos, algumas latas de 20 litros cheias de banha de porcos misturada com carne desses animais, bem como, sacas de farinha de trigo, farinha de milho, arroz e melado que foram consumidas por eles durante alguns meses até que conseguiram produzir alimentos na nova morada.

No mesmo caminhão que os trouxeram de Santa Catarina, foram transportados também quatro cabeças de gado, uma porca com sete leitões (animais que foram úteis aos migrantes) e um carro de boi. A preocupação em trazer os produtos alimentícios era pela dificuldade de adquiri-los aqui, pois, na época havia poucas casas comerciais em Santa Helena e região. Acrescenta-se a isto, as dificuldades de transitar nas poucas estradas que ligava as áreas rurais (interior) aos centros comerciais das cidades do oeste paranaense, uma vez que eram esburacadas e com muitos lamaçais, ocasionados pelas constantes chuvas que assolava a região à época.

Ao instalar-se na Linha Vera Cruz, Eno/Valesca construíram um galpão de fumo com duas varandas e, uma das varandas, transformaram em residência. O galpão além acomodar fumo, servia de chiqueiro de porcos, abrigo de gado, galinheiro e paiol. Há de destacar que para construir o galpão tiveram de transportar madeiras e telhas em carroções de bois por dois quilômetros de distância em meio à floresta, devido a inexistência de estrada até o local da construção.

Os desafios que tiveram de enfrentar no início da colonização em Santa Helena (Linha Vera Cruz), aos poucos foram sendo superados graças à solidariedade que havia entre vizinhos, como exemplo, era comum os agricultores trocarem entre eles dias de trabalho durante a colheita de cereais, abrir e/ou arrumar estradas e nas derrubadas das matas.

Três anos residindo na Linha Vera Cruz, Eno conseguiu excelente produção de cereais, com isso, pode saldar a dívida que tinha com seu pai (relatado acima). Na medida que as florestas eram derrubadas, plantavam soja, capim para criar gado de corte e de gado leiteiro e construíam mais chiqueiros para abrigar o aumento do plantel de porcos.

A soja que produziam era colhida manualmente usando uma espécie de foice para cortar os troncos do referido cereal. Paralelamente a este serviço, outro era necessário, descascar a soja com o uso de trilhadeira. Numa dessas colheitas, Eno, com auxílio da família e vizinhos colheram 450 sacas do mencionado produto com a força dos braços (“no muque”, disse ele).

Segundo Eno, os “colonos” ao colher os cereais nos primórdios da colonização estavam envoltos à preocupação no momento de vender a produção, porque corriam o risco de negociar com cerealistas “picaretas” que se instalavam em Santa Helena (picaretas - pessoas que exploravam ao máximo o agricultor e, às vezes deixavam de quitar as compras dos produtos que negociavam para com os agricultores), deixando-os em complicada situação financeira. Eno teve sorte de não ter sido explorado por essas pessoas, mas disse que infelizmente conheceu agricultores que foram ludibriado pelos “cerealistas”/vigaristas. De acordo com Eno Sehn, os agricultores começaram a ter certa segurança nas vendas e recebimentos de seus produtos agropecuários a partir da instalação e funcionamento em Santa Helena e região das empresas: Marialva (lembrando que esta empresa deu calote em alguns agricultores), Comasil/Cotrefal/Lar, Frimesa, o que fez afugentar os negociantes mal intencionados do setor agrícola.

Os entrevistados relataram também que dentre os momentos mais difíceis que enfrentaram em Santa Helena, destacam dois: a destruição total da residência por um incêndio em 1977, que consumiu móveis, eletrodomésticos e toda a documentação da família. Depois de muitas idas e vindas em cartórios e demais repartições públicas de Santa Helena e Curitiba, que lhes custaram sacrifícios físicos e financeiros, conseguiram retirar a 2ª segunda via dos documentos que haviam sido destruído pelo fogo. Único documento que não queimou neste incêndio, foi a escritura pública das terras da família porque encontrava no Banco do Brasil em Medianeira e a pior de todas, a morte inesperada da filha Neusa (ano 2005).  Foram dias, meses e anos de muita dor e tristeza à toda família, no entanto, com o transcorrer do tempo, as “feridas” deixadas principalmente por esta tragédia aos poucos foram sendo “cicatrizadas” o que os permitiram seguirem enfrente com a vida.

Após destruição da casa em razão do fogo, voltaram a residir no galpão que outrora os abrigaram até que conseguiram construir novamente outra residência. Eno ressaltou também que quatro alqueires e meio (4,5) de suas terras ficaram submersas com a formação do Lago de Itaipu, por isso foi indenizado pela empresa binacional. Com o dinheiro desta indenização, comprou de agricultores (Linha Vera Cruz) alguns remanescentes (áreas rurais) que se formaram pós Lago de Itaipu. Com muita luta e determinação Eno/Valesca conseguiram adquirir 50 alqueires de terras entre a Linha Vera Cruz e Vila Celeste. Destes, repassou 10 alqueires para cada um dos filhos: Neides e Tayson. Neusa (inmemória) negociou com seus pais o valor de 10 alqueires de terras da seguinte forma, que os repassasse em dinheiro. E assim estavam cumprindo com o combinado, mas, por ironia do destino, sua vida foi ceifada tragicamente antes que ela pudesse receber o valor integral desta negociação familiar. Os demais 30 hectares, continua em nome do casal e, quem administra essas terras são os filhos, genro e nora. Na área urbana de Vila Celeste, compraram 04 terrenos, destes doou um à cada filho. Os outros dois continuam pertencentes ao casal, até porque neste local construíram a casa em que residem desde 1999.  

Quanto a convivência social, a 37 anos Eno colabora na evangelização de crianças e adolescentes da Linha Vera Cruz e Vila Celeste que congregam na Igreja Católica. Os preceitos cristãos são repassados à essas pessoas através da catequese sob orientações contidas na Bíblia, disse ele. Outras participações de interesse comunitário por onde residiu o entrevistado, desempenhou a função de tesoureiro do Clube Sport Santos, time de futebol de campo que existiu na Linha Vera Cruz antes da formação do Lago de Itaipu em 1982; a convite do então Padre Valentin (Pároco da Igreja Matriz de Santa Helena) que o designou ministro eucarístico pelo qual exerceu esta atividade religiosa por  35 anos em Vila Celeste e regiões adjacentes; presidente, vice-presidente e tesoureiro do Clube do Idoso do citado distrito; presidiu a diretoria da Escola Municipal da Linha Vera Cruz, participou da APMF – Associação de Pais, Mestres e Funcionários do Colégio Estadual Humberto Alencar Castelo Branco (1997/1998 – SH); membro do Conselho Administrativo e Fiscal da CERME – Cooperativa de Eletrificação Rural de Medianeira que existiu em Santa Helena até a década de 1990; integrou por vários anos dos comitês: do leite, suíno e da agricultura da COTREFAL, hoje Lar, de Santa Helena; fez parte da comissão que reivindicou o funcionamento e regularização da Escola Estadual José Biesdorf de Vila Celeste (Ensino Fundamental Séries Finais); atualmente é Presidente da Associação Comunitária dos Idosos  e  responsável por acionar o sino da Igreja Católica antes do início das Missas em Vila Celeste em substituição a Guerino Varnier (inmemória) que exerceu voluntariamente por décadas este serviço; Presidente do Centro Comunitário de Vila Celeste; participou do movimento de reivindicação para melhor valorização e pagamento das terras que seriam indenizadas pela Itaipu.

Finalizou a entrevista ao dizer que realizou o sonho de conhecer em 2015 a região na Alemanha que viveram seus ancestrais antes de imigrarem para o Brasil.

Quanto a participação de Valesca frente aos interesses comunitários por onde tem vivido nestes últimos 50 anos: coordenadora de Grupo de Família, bem como, na organização, comunicação à população do local de cultos e demais  eventos de interesses religiosos da Igreja Católica local, além de dar apoio às ações sociais do esposo. Participou também da fundação de Clube de Mães das localidades: Linha Vera Cruz e Vila Celeste. Ainda hoje faz parte do Grupo de Família (coordenação/liturgia).

Agradeço de coração ao casal Eno/Valesca Sehn por esta entrevista de interesse social, cultural e histórico para a História do município de Santa Helena/Paraná. Professor João Rosa.